29.12.08

Ah, o Natal...(II)

O mais belo presente de Natal, o que todos apreciam apreciam receber é efectivamente o mais precioso dos bens. Chama-se "tempo". O meu tempo. Aquele tempo que às vezes não chega para mim e que, por isso mesmo, gosto de oferecer aos outros.

Gosto de oferecer um dia diferente aos mais pequenos. Ir buscá-los a casa, almoçar com eles e ir ao teatro. Gosto de ir passar um fim de semana com os adolescentes. Andar de balão, fazer uma corrida de kart, escalar, passar a noite a contar velhas histórias. Gosto de passar um fim de semana com a minha avó numa pousada. Não vos falo de oferecer um "voucheur" pronto a consumir. Trata-se de preparar tudo à medida e ir com eles. Estar.

Eu gosto de oferecer tempo. O meu tempo.

27.12.08

Ah, o Natal...

Derivado de uma tremenda falta de visão estratégica de quem gere os destinos do universo, não sou normalmente convidado para esses programas de televisão onde perguntam às pessoas se já fizeram as compras de Natal e se gostam do Natal e se gastaram muito dinheiro no Natal e as pessoas dizem que não se pode, que só desejam ver o Natal pelas costas e que se fartaram de gastar dinheiro e só compraram coisas que não lembram a ninguém.

O que eu invejo nessas pessoas é que elas escrevem sempre uns posts muito melhores que os meus o que, parecendo que não, é obra. A rezinguice (adoro escrever "rezinguice"...), aquele ar de que toda a gente lhes deve dinheiro e aquele ambiente de malfodibilidade congénita dão um ar de credibilidade ao que se escreve que eu jamais alcancarei.

Eu, que fui rapazinho para fazer as minhas compras de natal sem entrar num centro comercial, e que sou o tio cujos presentes são os mais aguardados, incluindo a famigerada faixa etária 14-17 anos, sei o segredo para passar a época com um sorriso nos lábios e, chegando ao fim, ainda concluir que me sobra liquidez para dar ali um pulinho a Londres só ver um musical que se me escapou na última vez que lá estive (e já lá vão quase três meses, caramba...).

Agora é convidarem-me para os tais programas de televisão e eu explico tudo. Ou então alguém aflorar vagamente o tema aqui na caixa de comentários, que também serve para eu explicar.

(Em desespero de causa, posso sempre ordenar ao Horácio Inácio que faça o frete e explico na mesma...)

21.12.08

Dez anos antes do tempo (IV)

Lá terei que estacionar o meu carro (carrinha, esqueço-me sempre que agora tenho uma carrinha...) ao lado dos carros alemães topo de gama.

Não é difícil saber qual é o meu carro (carrinha, esqueço-me sempre que agora tenho uma carrinha...) , é o único que não tem o equipamento de golfe na bagageira.

(Nota mental: tirar os suportes de bicicleta do tejadilho. E os porta-esquis, quando for tempo disso. Aliás, os porta-esquis talvez sejam permitidos...)

Dez anos antes do tempo (III)

Com a antecipação do presente de Natal que esperava para 2018, vieram as primeiras contrariedades, logo a mim que não estou biologicamente preparado para ser contrariado, logo a mim, que tenho uma religião que não permite as contrariedades.

E vejo-me num sábado à tarde perante a dificílima decisão de escolher entre alterar as grandes linhas do plano para 2009 ou ir aos Gotan Project.

Ofereci os bilhetes para os Gotan Project. Afinal, toda a gente sabe que sou um imbecil...

Dez anos antes do tempo (II)

No jantar de natal (gosto de jantares de natal, ninguém me ouvirá dizer que são uma maçada), no jantar de natal, dizia eu, há sempre troca de presentes (gosto de trocas de presentes, aviso já).

A mim calhou-me um poster gigante do "Padrinho". Que é para colocar no gabinete novo, na parede atrás de mim, disse-me o ofertante.

Acho que vou promover este tipo...

Dez anos antes do tempo

Dez anos antes do tempo calha-me em sorte o lugar que ambicionava para daqui a dez anos.

Nas últimas vinte e quatro horas descobri que tenho dezenas de amigos que não conhecia, mas que se lembram de cada tirada de genialidade das minhas apresentações, que recordam nostálgicos o fino humor com que dirigia as reuniões menores.

Acho que vou protelar por algum tempo a decisão nomeação para o meu anterior lugar e prolongar estes dias de exaltação das minhas capacidades lendárias. Afinal é tão bom ter amigos...

20.12.08

Espírito de Natal

Enquanto os aromas suaves do Hennessy se vão desprendendo, a rapariga da farda verde distribui as cartas. Com o avançar da noite, só fiquei eu e a mulher da voz rouca e óculos de sol enormes. Talvez lhe tenham dito que os óculos de sol enormes me intimidariam, talvez lhe tenham dito que os óculos de sol enormes lhe garantiam uma muralha que não deixaria escapar emoções. Coisas de mulheres, a mim só me parece deslocado estar de óculos de sol enormes a jogar poker numa sala cheia de fumo.

Dou finalmente alguma atenção às cartas. Tenho um royal-flush. Não há nada que me dê mais gosto do que ter um royal flush na mão, principalmente quando tenho uma mulher bonita à minha frente, apesar dos óculos de sol enormes.

Decido que não vou a jogo. Sinto-me um lindo menino.

18.12.08

Horácio Inácio em modo mãos-largas

A máquina multibanco mais próxima aqui da herdade é do BPN. Quando vejo as pessoas levantar dinheiro naquela máquina, com os seus ares de felicidade, fico sempre à espera que me agradeçam.

Afinal de contas, aquele é o meu dinheiro.

15.12.08

Pensamento que me ocorreu no museu Van Gogh, em Amsterdão



E agora aparecia um génio da lâmpada e eu podia ter resposta a uma, e não mais do que uma, dúvida que me atormenta.

E eu nem hesitava e havia de escolher saber em que livro Van Gogh abriu a Bíblia para a pintar.

(Não se pode fotografar lá dentro, é por isso que a foto é do site do Museu.)

14.12.08

Do café

Já tinha reparado nela, era impossível não reparar nela, afinal era a mulher de quem se falava no Clube, dizia-se que vivia ali para os lados das casas do lago e que ouvia Mendelssohn de madrugada, tão alto que o Opus 62 se podia ouvir a mais de cem metros de distância se a noite estivesse quieta e o vento de feição.

Mais do que Mendelssohn ouvido de madrugada (cem metros com noite quieta e vento de feição? Pfff...), interessei-me por ela porque se dizia que era especialista em café. Que sabia tudo o que havia a saber sobre as misturas certas de arábica e robusta, que sabia as diferenças entre cada nível de torragem e que dominava como ninguém o blend certo de um espresso macchiato. Dizia-se mesmo que ela servia a convidados especiais um Kopi Luwak sublime, mas isto é capaz de ser lenda.

Um dia enchi-me de coragem e convidei-a para um café. Pedi um espresso. Ela fez um pedido mais elaborado, perguntou pelos lotes e explicou detalhadamente a que temperatura desejava que fosse servido.

Quando chegou o café dela, despejou-lhe um pacote de açucar.

Nunca mais a vi.

12.12.08

Dos hotéis antigos

Há qualquer coisa que me agrada nestes hotéis antigos, construídos nos anos sessenta, as janelas em madeira, as torneiras de ferro, o bar com garrafas de Pisang Ambon e Bols Curacao, as gravuras de caça ou de naturezas mortas nas paredes , o chão de alcatifa barata, o mobiliário pouco firme, as cadeiras de plástico branco na varanda, o metal do gradeamento oxidado. Não há televisão de plasma no quarto, não há torneira misturadora no duche, não há vidros duplos nas janelas.

Há qualquer coisa que me agrada nestes hotéis antigos. Não sei bem o que é.

7.12.08

Desagradável, desagradável...

...é lembrar-me que pela primeira vez em dez anos não faço as compras de Natal em Andorra La Vella

(A mim está-me sempre a acontecer mas é isto...)

E ao fim de quase trinta horas quase consecutivas de trabalho cometo um erro. Errar custa muito dinheiro, são seis da tarde e já não há como reparar o erro.

Às nove da manhã do dia seguinte o erro já custa o dobro, apesar de ter passado a noite a tentar ser o melhor amigo do senhor Bloomberg.

E às dez da manhã há uma reunião de crise em que há que decidir se rebenta a bolha ou se aguardamos dois dias e ao fim de dois dias pode acontecer um milagre ou posso ser despedido por justa causa.

Peço carta branca para tentar uma terceira via, uma solução tão estapafúrdia que ninguém acredita que se possa realizar a uma sexta-feira à tarde, mesmo às portas de um fim de semana prolongado, com os mercados adormecidos e em que nem aos deputados lhes apetece trabalhar. Uma hipótese em quinhentos, mesmo como eu gosto. Estranhamente, é-me dada a oportunidade de tentar.

Quando faltam dois minutos para as quatro da tarde, a coisa dá-se. Abraços e sorrisos e mensagens a elogiar o trabalho de equipa e não sei quê. Sorrio, sei que só eu é que acreditei. Vou dar um passeio a pé, à chuva, para dar tempo a que os níveis de adrenalina voltem aos níveis normais.

Adoro trabalhar aqui.

Está-me sempre a acontecer isto

Parece [Parece? PARECE? É absolutamente óbvio, pá!] que não foi convidado para ler este blogue.
Se pensa tratar-se de um erro [Claro que não é erro nenhum, rapaz, nem penses nisso...], deverá contactar o autor do blogue [havia de servir de muito, não me ía responder, ó rameloso!] e solicitar um convite [És tonto, pá, isso havia de ser bonito...].

6.12.08

A boa notícia é que o Moretto voltou a ser opção...

Quim deixa entrar seis em Brasília.
Quim deixa entrar cinco em Atenas.
Quim deixa entrar dois na luz.

Precisamente quando os números dizem que Quim está a melhorar a olhos vistos, o treinador tira-o da equipa?

5.12.08

Das coisas boas que tem ir a Madrid e regressar a Lisboa em menos de seis horas é poder dar uma vista de olhos pelo El País.

Eu, que por mais que me esforce, não perco a capacidade de me emocionar, dou por mim a ler sobre o serviço público à escala planetária de José António Abreu, um venezuelano de Trujillo.

O Sistema Abreu parece simples, trata-se de distribuir instrumentos às crianças de bairros pobres, depois incorporá-las em orquestras infantis, progredindo os melhores para orquestras juvenis e por aí fora, até chegarem a maestros de grandes orquestras, como está prestes a ser o caso de Gustavo Dudamel, provável futuro maestro da orquestra de Los Angeles. O Sistema Abreu é a prova de que o idealismo de um homem pode conquistar o mundo, mesmo que essa conquista signifique que um venezuelano exporte o seu método para aplicação nos bairros de Harlem e do Bronx.

Com o petróleo a menos de quarenta dólares, talvez não fosse mal pensado trocar os "Magalhães" pelo Sistema Abreu aplicado no Bairro do Aleixo ou na Cova da Moura. Ganhávamos mais.

(A quem interessar, está aqui o link)

2.12.08

What else?...


Diz que é para ajudar, e isso...

Eu não percebo muito de música, conheço bem as minhas limitações.

Mas, ainda assim, percebo o suficiente para dizer que a Popota canta muito melhor do que o Tony Carreira...

Mais um dia, mais um sonho realizado...

Quando eu era criança sonhava com o dia em que viajaria ao passado, numa máquina do tempo.

Ontem consegui, finalmente. Ouvi até ao fim o Jerónimo de Sousa mais o seu discurso de encerramento do congresso do PCP.

1.12.08

Caramba...

Ainda me custa a acreditar que o Senhor Visconde me tenha convidado para um blog colectivo, a sério que me custa. Logo a mim, Horácio Inácio, que não faço ideia da percentagem de uvas Cabernet-Sauvignon no Cartuxa, eu que nem imagino qual será o blend de tabacos do Partagas nº1.

Procurarei estar à sua altura, Senhor Visconde. É capaz de não ser muito difícil…

Está bem que é com um tipo que aprecia Cutty Sark de cinco anos, mas ainda assim...

O mau maior sonho era escrever num blog colectivo. Sempre foi. Tentei enganar-me a mim mesmo durante anos a fio e acreditar que o meu maior sonho era nós ganharmos a final da liga dos Campeões ao Benfica, aos oitenta e sete minutos perdíamos por dois a zero, mas acabávamos por ganhar por quatro a dois, um golo aos oitenta e nove, outro aos noventa e um, outro aos noventa e três e o último dos quatro auto-golos do Carlos Martins havia de acontecer aos noventa e seis minutos. Mas não, não valia a pena iludir-me, o meu maior sonho era mesmo escrever num blog colectivo. Durante anos insinuei-me, pedi encarecidamente, dei saltinhos, tentei tudo para que alguém me convidasse para um blog colectivo. Podia mesmo ser com o Pacheco Pereira, na hora do desespero tudo me passou pela cabeça. Em vão. Ninguém me ligou, ninguém me convidou, nada.

Ontem concretizei um sonho, aliás, concretizei O sonho. Escrevo desde ontem num blog colectivo. Eu e Horácio Inácio, para o que der e vier. Juntos, unidos, inseparáveis. E é bom...

30.11.08

Se eu mandasse...

...não mando, eu sei que não mando, mas se eu mandasse, não deixava começar nenhum congresso do Partido Comunista sem que visualizassem todos, mas todos mesmo, o "Goodbye Lenin" do Wolfgang Becker.
Depois sim, podiam começar. Se achassem que ainda valia a pena...

28.11.08

Um amigo meu desafiou-me a mostrar o que tenho nos bolsos neste momento. Basicamente, é isto...

Com a cabeça ainda mais cheia de Aznavour

É bem possível que quem passa por aqui não se tenha sentido motivado a carregar no "play" daquele vídeo do YouTube que está ali em baixo, o do Aznavour. Eu entendo, eu nunca vejo os vídeos (*) do YouTube que as outras pessoas, laboriosamente, colocam nos seus blogs. Acho sempre que são mensagens subliminares, que reflectem o estado de espírito do momento e, perguntem a quem quiserem, se há coisa que me incomoda são as mensagens subliminares mais os estados de espírito das pessoas.

Mas, meus senhores e minhas senhoras, acontece que recomendo vivamente a visualização do Senhor Aznavour a interpretar no Olympia o Emmenez-Moi, isto pelo facto de o Senhor Aznavour ser um dos dois homens no mundo capazes de me marejar os olhos de lágrimas (o outro é o Lionel Messi), isto sem contar com o Paulo Bento, mas esse é por outra sorte de motivos, nem quero falar nisso que me dá logo os nervos.

Era só isto, não voltarei ao tema. A não ser que me apeteça, é evidente.

(*) A excepção é a Sem-se-Ver, está claro

27.11.08

Com a cabeça cheia de Aznavour

Décimo Post. Cinco vezes dois, portanto.

Quando estamos com os melhores à nossa frente, resta-nos ser sublimes, buscar as energias que temos e as que não temos e ir à luta.

Ora aborrece-me quando vou a Alvalade e as coisas não acontecem assim, como eu acabei de dizer que devem acontecer. E o que eu vi foi aquela rapaziada dos jogadores de bola a esconder-se atrás de umas moitas que há ali à volta do relvado (há sempre moitas atrás dos relvados, é da natureza das moitas), ali agachadinhos à espera que uma borboleta batesse as asas na Austrália, ou lá onde é que as borboletas batem as asas,e a deslocação de ar multiplicar-se e gerar um minitufão que acabaria em Alvalade, no preciso momento em que o melhor jogador do mundo, Messi, esse, se preparasse para rematar e caísse, derrubado pelo monte de relva (há sempre montes de relva em Alvalade, é da natureza de Alvalade ter tufos de relva) e, ao mesmo tempo, descontando o fuso horário que separa a Sibéria da Austrália, um urso polar, daqueles branquinhos (é da natureza dos ursos polares serem branquinhos), bocejar e aquela massa de ar que ainda agora estava no pulmão do urso polar, liberta-se e arrefece, que as temperaturas na Sibéria não são brincadeira, e, arrefecendo a massa de ar diminui a pressão, qualquer professor de química, mesmo dos que não querem ser avaliados (bem sei, eles querem ser avaliados, não querem é tanta papelada) e aquela massa de ar do bocejo do urso branquinho, subitamente arrefecida, multiplica-se por mil e por um milhão e vem por aí fora e transforma-se num ciclone que vem direitinho, já estão mesmo a adivinhar, vem direitinho a Alvalade e bate na bola da liga dos campeões, quarenta e tal euros de bola, em sendo oficial, as que não são oficiais custam menos de metade e não são piores, bate mesmo por baixo da bola no preciso momento em que a bola ía entrar na baliza errada e muda-lhe definitivamente a trajectória, de tal sorte que ela, a bola, volta para trás e bate em cheio no Paulinho roupeiro.

E aborrece-me, mais do que os jogadores atrás das moitas, aquela rapaziada que pagou para se divertir e não liga ao indesmentível facto de estarmos a levar cinco e grita "olés" para ver se os tipos se baralham e pensam que estão a perder e metem outros cinco e, como se fosse pouco dizer "olé" quando estamos a levar cinco, ainda gritam pelo Real Madrid, que também nos deu cinco ainda o Outono não tinha começado, e também me aborrece terem ido todos embora sem me ajudarem a aplaudir de pé o adversário e, finalmente, aborrece-me o treinador, com aquela vozinha de sketch do Gato Fedorento, depois de levar um baile de bola, vir falar em descoordenação no sector defensivo e descoordenação na transição para os movimemtos ofensivos e mais aquelas coisas sobre não sei quê e penalites que se calhar não foram em vez de dizer, e isto sou eu que gosto das coisas direitinhas, sou um assertivo, não há teste de liderança que não diga que sou assertivo, quer dizer, há uns que dizem que sou manipulador, mas eu consigo sempre arranjar maneira de a coisa dar em cheio no assertivo, em vez de dizer, dizia eu, "os miúdos esconderam-se atrás da moitas e levámos um banho de bola".

E, chegado ao carro, aliás à carrinha, esqueço-me sempre que agora tenho uma carrinha, preta, linda, deparo com o fantástico e perfeitamente adequado, estão sempre a acontecer coisas adequadas na minha vida, tenho que ver o que se passa, aparece-me, ali entalado entre os bancos da frente, dizia eu, a estrondosa Suite Ibéria do Albéniz, Isaac Albéniz, vejam lá vocês, um concerto de um catalão imediatamente a seguir ao concerto de outros catalães, vejam lá se o meu mundo não é perfeito, tão perfeito que demorei três horas a chegar a casa, fui por uma estrada junto ao mar, logo eu que vivo na Lezíria, o Albéniz ali a tocar só para mim e eu a demorar as tais três horas que é o tempo exacto que levo a desaborrecer-me quando me aborreço.

26.11.08

Regras básicas para jantar no Eleven sem marcar mesa antes

1 – Chegado à recepção, faça um ar de incrédula surpresa pelo facto do seu nome não estar com indicação de mesa reservada para daí a cinco minutos.

2- Deixe claro que a resolução do problema cabe ao recepcionista (use a expressão “desta embrulhada que os senhores arranjaram, que maçada…”). Independentemente do facto de a sua secretária ter reservado lugar na Churrasqueira do Campo Grande ou no Pizza Hut do Colombo (há, não há?...), a culpa de não haver mesa reservada em seu nome no Eleven é da exclusiva responsabilidade “dos senhores”.

3 – Eleve o tom de voz ao nível decibélico que costuma utilizar quando fala com a sua bisavó. Observe, sem se desmanchar a rir, as caras dos restantes comensais que se viram para si e, pelo canto do olho, deleite-se com o aumento de pulsação do recepcionista.

4 – Fale alto ao telefone e profira a seguinte conjugação de palavras: “Não imagina o que me está a acontecer no Eleven, senhor presidente”. Não se preocupe, não há qualquer possibilidade de o recepcionista intuir que você está a falar com o presidente do Clube Filatélico e não com O presidente que tem poder de efectivamente influir nos destinos de um país (*).

5 – Fale em francês com o seu acompanhante (se for Visconde, com a sua acompanhante) e inclua na conversa, aleatoriamente, as palavras “retirer”, “étoiles” e “Michelin”.

6 – Sente-se na sua mesa, a melhor mesa do Eleven, exactamente na cadeira onde a Laetitia Casta se costuma sentar.

7 – No final aceite as desculpas do gerente e sorria-lhe. Não estranhe não lhe trazerem a conta, hoje é convidado da casa.

8 - Ainda tem nos lábios aquele travo a madeira da Califórnia do Château Lafite de 58? Excelente…


(*) Filipe Soares Franco

25.11.08

E amanhã, o Barcelona, até me custa a acreditar...

Não há que ter medo de escrever sobre mulheres. Alguns de nós, a vergonha do género masculino, chegam cheios de genica, pêlo na venta, "eu sei tudo sobre mulheres" e depois definham, acobardam-se, não partilham o saber.

Comigo não, meus amigos. Comigo é diferente, eu vou contar tudo o que sei. Sem receios, sem medo de errar.

Começo pelo mais importante que é

E o quadro do Van Gogh não existe

Eu, o mecenas-mor do cinema português, o que se senta sozinho nas salas mais desconfortáveis dos cinemas do país real, o que vê os filmes que mais ninguém tem paciência para ver, não merecia isto.

Eu, que desta vez nem fui lá para visualizar a arte dramática da Soraia Chaves, asseguro que não, até porque a Flora Martinez comove-me muito mais, não merecia isto.

Eu, que perdi quase duas horas a visualizar um filme português falado em inglês, com o Nicolau Breyner, não merecia isto.

Eu, que assisti até ao fim a uma tentativa infame de arremedo de Tarantino, esse farol da sétima arte, não merecia isto.

Eu, que fui ao cinema com a firme intenção de não gostar do filme, não merecia sair da sala com um leve sorriso, não merecia que o filme afinal até fosse razoável, quer dizer, razoavelzinho.

24.11.08

Hora de almoço

Se há coisa que me aborrece é laborar no erro.

Até ontem, e só de pensar nisso até se me dá uns arrepios, até ontem, preparei invariavelmente o sashimi de cavala, finamente cortado, envolvido em suave vinagretta, porém acompanhado de laranja. A vinagretta, evidentemente, foi irrepreensivelmente elaborada com uma mistura de óleo de laranja, vinagre de Jerez e molho de soja, tudo ligado com alho e gengibre. Por aqui nunca houve novidade, a vinagretta nunca foi um problema e, se fosse, a frescura dos filetes de cavala sem espinhas sempre compensa algum deslize na feitura da vinagretta.

A questão, e só ontem entendi na sua plenitude o erro crasso em que vinha laborando, a questão é o acompanhamento com laranja. Em substituindo a laranja por toranja rosa, o palato imediatamente se surpreende e reage em conformidade.

Era só isto. Toranja rosa. Faz diferença. Toda a diferença.

22.11.08

Eyes wide shut

O jantar de ontem trouxe-me à memória um filme. Naturalmente, porque preservo a minha privacidade, não revelarei aqui de que filme se trata.



Percebo que o mundo é um lugar estranho...

...quando dou por mim a ter um genuíno interesse no resultado do jogo do Leixões.

19.11.08

Café forte ao jantar...

Certamente eu teria gostado de estar em Berlim, quando caiu o muro, talvez tivesse sido engraçado ter vinte anos em 1974 e ter estado no Largo do Carmo num certo dia de Abril, tenho mesmo a certeza que teria apreciado ter estado em Paris quando o "Spirit of St. Louis" de Charles Lindberg lá aterrou.

Mas, de tudo, o que mais me dá sensação de perda é nunca ter visto Von Karajan na direcção da Filarmónica de Berlim, principalmente se tivesse calhado naquele dia da interpretação da Quinta de Beethoven, Karajan de olhos fechados a dirigir a orquestra.

Graçolas que perdem o prazo de validade num instante

Sempre gostava de saber quantos professores avaliaram hoje o PROFESSOR Carlos Queirós...

(Memória futura: Brasil 6 - Portugal 2)

18.11.08

Primeiro post

Um dia, algures no Verão, estava o Brent a negociar a mais de cento e quarenta e cinco dólares por barril, e eu a apostar num Brent a duzentos dólares por barril no fim do ano, um amigo meu, também Visconde, assegurava-me que o ficava mesmo bem na minha vida era ter um blog.

Eu, que não sou de modernices, ri-me e disse-lhe que havia de ter um blog no dia em que o Brent valesse menos de cinquenta dólares por barril.

"Mais valia dizer que não está a pensar ter um blog" riu também o meu amigo, Visconde como eu, erguendo a sua taça de Piper-Heidsieck e não pensando mais no assunto.

Hoje o Brent fechou a quarenta e nove dólares e dezoito cêntimos...