31.12.09

Não é que esteja a desejar bom ano a ninguém

Talvez eu não devesse ter substituido as doze passas por doze shots de gin, já lá vão muitos anos, é uma tradição e toda a gente sabe que as tradições são para se cumprir, que importa que sejam tradições de um ano só, afinal de contas quem decide se é tradição, ou não, sou eu e, em eu decidindo que doze shots de gin é que é, a coisa ganha logo uma dinâmica própria, torna-se lenda, há seguidores disponíveis para abraçar a novel tradição, cada um nasce para o que nasce, eu nasci para opinion-maker, é eu decidir que a coisa tem que se dar com doze shots de gin e é ver as passas de uva a apodrecer de um ano para o outro e as garrafas de Gordon's a desaparecer das prateleiras dos supermercados do mundo inteiro, as acções da Alexander Gordon's & Company a disparar.

Em substituindo as doze passas por doze shots de gin as decisões de ano novo ganham uma nova dimensão, é acordo tácito que tudo o que se disser entre a meia noite e as duas da manhã vale tanto como o nosso treinador dizer que ainda vamos a tempo, que o balneário já sorri, caramba, são doze shots de gin, a credibilidade que se dá à promessa de perder peso, de comer mais alface, de fazer mais exercício físico, de dormir mais horas, de fazer voluntariado, a credibilidade destas sábias decisões de ano novo é zero, talvez, e aqui ressalvo o "talvez", a única decisão de ano novo credível é a de jurar nunca mais tocar em gin e, mesmo essa, vale até Março, Abril, vá.

28.12.09

Coisas que eu nunca saberia se hoje tivesse sido um dia de trabalho

1) A música do anúncio do "Pingo Doce" passa em contínuo nos supermercados "Pingo Doce"

2) Não pude deixar de verificar que é paradoxal que o Honda CRX do indivíduo de raça negra que ficou sem gasolina na segunda circular tenha ficado parado debaixo da ponte pedonal que tem o anúncio da Repsol

3) A senhora com ar extremamente agradável que me perguntou hoje na Garrafeira Nacional, ali à Rua de Santa Justa, se eu a poderia ajudar, confundindo-me com um colaborador da loja (de onde se verifica que eu deveria ter feito a barba hoje), não esperou pela minha resposta à sua pergunta

4) O Dave vai ter um tremendo problema com o Alvin e a Britanny, ainda para mais o Dave está todo entrevadinho, coitado, não vai conta da maluqueira daqueles dois.

5) Não pude deixar de ouvir uma senhora a comentar com uma amiga ao telefone que a palavra "paralelipédico" é óptima para o parceiro dizer enquanto pratica "cunnilingus" (o que quer que seja isso de "cunnilingus")

Este ano...

...esquiei em pistas pretas em Andorra, comprei um fato em Nova Iorque, escalei montanhas na Suiça, fui à ópera em Milão, comi fish and chips em Londres, jantei no Guggenheim em Bilbau, passei o Natal em Paris, bebi chá em Berna, perdi-me em Genéve, cheguei um dia atrasado ao festival de Locarno, vi Sorolla em Madrid, fiz as compras de Natal no Porto.

Este ano podia ter corrido melhor.

Do (meu) Natal


22.12.09

Homilia da manhã

E, no entanto, eu teria tudo para detestar o Natal. Centros comerciais, presentes vulgares, só para fazer número, pessoas desfocadas da realidade que é o binómio "rendimento disponível vs monte de dinheiro que gastei em inutilidades", comerciantes que se queixam, queixam-se sempre, é da natureza dos comerciantes, jantares com quem não se gosta, a sorrir e a pensar com quem se devia estar nesse momento, e não era com aquele estafermo que ainda ontem nos gamou os clips todos, a cabra, amigos que nos oferecem o Rodrigues dos Santos, que colocamos ao lado dos outros Rodrigues dos Santos, ainda se ao menos juntassem o talão da FNAC para trocar os dezassete Rodrigues dos Santos pelo último do Dennis McShade, a Tia Josefina que nos visita sempre por esta altura, antigamente ainda nos trazia uma nota de cinco contos e um queijo da serra daqueles caseiros, agora nada, puta da velha, ainda por cima implica com os talheres Cutipol, os dela são Christofle, está bem que já só tem três garfos de carne e uma colher de sopa, mas são Christofle, como eu ia dizendo, repare, já escrevo "ia" em vez de "ía", ia eu dizendo que eu teria tudo para detestar o Natal.

Mas não.

21.12.09

Das criancinhas

No início, o meu método para controlar as criancinhas que correm desenfreadamente por entre as mesas de restaurantes, sem que os progenitores lhes estabeleçam um território, uma norma, uma regra que seja para salvaguardar a sã convivência entre os seus filhos e os restantes comensais, o meu método, dizia eu, era eficaz, porém básico. Consistia em agarrar a criancinha pela gola do casaco, utilizando apenas o polegar e o indicador, quando as crianças invadiam o meu espaço vital pela terceira vez. Levantava-me, tranquilamente, criancinha pendurada, a esbracejar, tentando libertar-se da tenaz em que se transformavam o meu indicador e polegar, e depositava-a junto de seus pais, murmurando entre dentes "não quero voltar a encontrá-lo a menos de vinte metros do meu gin tónico". Virava costas e as pessoas acabavam por pagar a conta rapidamente e sair, provavelmente para o centro comercial mais próximo, onde, com toda a certeza, os caminhos daquela família não se cruzariam com os meus.

Com o tempo fui aprimorando a técnica até à maravilha de eficácia que é hoje e que consiste, basicamente, em fixar um olhar gelado na criancinha. A criancinha está habituada a que lhe achem graça a todas as tropelias e não está preparada psicologicamente para enfrentar um olhar gelado de cada vez que se aproxima de pessoassó para lhes atirar um objecto qualquer. O olhar gelado consiste em seguir os movimentos da criança, sem desviar o olhar, a criancinha linda vai-se esgueirando, esboçará um sorriso para nos conquistar, resulta em noventa e oito por cento dos casos, a criancinha realiza que não está a ter sucesso, vai-se afastando, de vez em quando olha para trás, só para se certificar que ainda estou ali, sim, confirma-se, o meu olhar gélido continua a fixar a criancinha, a criancinha começa a ficar com movimentos cada vez mais lentos, significa que o olhar gelado está a resultar, resulta sempre, a criancinha aproxima-se da mãe que lhe estende os braços gordos, repletos daquelas pulseiras da Pandora com as inciais do nome da criancinha e dos primos da criancinha, começa a tremer o beiço da criancinha, o pai, calças Armani e camisa preta justa, faz uma tentativa de interrogar a criancinha, a criancinha no meio do berreiro ainda esboça o gesto de apontar na minha direcção, arrepende-se a meio, o meu olhar gelado mantém-se, os pais da criancinha acabam por concluir que é sono, é sempre sono quando as criancinhas são mal educadas, pagam rapidamente e saem para o centro comercial onde os meus caminhos e os daquela família certamente não se cruzarão.

19.12.09

Basicamente foi isto, encerro aqui o capítulo alla Scala

Da violência doméstica

O grande erro do Don Jose foi ter suplicado o amor de Carmen

Carmen, je t'aime, je t'adore!
Et bien! s'il le faut, pour le plaire,
Je resterai bandit ... tout ce que tu voudras...
Tout! tu m'entends ... tout!
Mais ne me quitte pas,
Ô ma Carmen! ah!
Souviens tu du passé! Nous nous aimons naguère!
(désespéré)
Ah! ne me quitte pas, Carmen,
Ah! ne me quitte pas!

Não há quem não saiba, tirando Don Jose, lá está, que o amor não se suplica e, em um homem suplicando o amor, não pode esperar outra coisa senão

Jamais Carmen ne cédera!
Libre elle est née et libre elle mourra!

Reparem, Carmen está prestes a cair nos braços de Escamillo, logo, não se trata de manter a sua liberdade, a questão é que não há nada mais ridículo, não existe maior turn-off que um homem ajoelhar-se e suplicar o amor de uma mulher.

Tivesse Don Jose sabido congelar a emoção e as coisas teriam corrido melhor, Carmen e Escamillo haviam de se desentender, aqui convirá recordar que Escamillo não era homem de uma mulher só e não me quer parecer que Carmen mais os seus nervos à flor da pele suportassem um Escamillo cheio de aventuras extraconjugais, a coisa aguentava-se mais um ou dois meses, Carmen havia de se fartar, ainda para mais em Sevilha, aquilo é tão quente, e, em se fartando das desculpas esfarrapadas de Escamillo, um dia sair para comprar cigarros e encontrava os amigos e tinham ido ali só matar um touro ou dois para desenferrujar, outro dia tinha saido para espairecer e beber manzanilla na taberna do Lillas Pastia, Carmen havia de se lembrar do bom Don Jose, que estaria ele a fazer?, caramba, pensaria ainda nela?, e lá iria Carmen procurar conforto em Don Jose, as coisas haviam de ser frias ao princípio, Don Jose havia de saborear longamente a pequena vitória, mas, talvez numa noite de luar ou de chuva forte, estas coisas tendem a acontecer sempre em noites de luar ou de chuva forte, havia finalmente de aceitar o amor de Carmen e viveriam felizes para sempre, o que, pensando bem, talvez Bizet tivesse ponderado mas terá abandonado este final alternativo porque é sempre mais dramático um homem despeitado pegar na faca e matar a sua amada, se não és para mim, não serás para o matador de touros, era só o que faltava.

17.12.09

Dos terramotos

Sim, hoje senti um terramoto.

Na alma.

16.12.09

Adoro o Natal

Sexta-feira, gin tónico no bar do Zé Carlos, depois do concerto de Domingos António.

Sábado, gin tónico no Gattopardo, em Milão, depois de jantar no Et de Milan.

Domingo, gin tónico no Boeucc, depois da ópera no Scala.

Segunda, gin tónico no Hesperia de Madrid, depois de apostar tudo numa ideia.

Terça, gin tónico no Casino do Estoril, depois de ganhar na roleta e perder no blackjack.

14.12.09

Do Scala (Horacio's perspective)

Com tanta boazona a passear-se nas Galerias Victor Emmanuel durante a tarde, logo haviam de calhar duas velhas, uma de cada lado, à noite na Ópera...

Do Scala (I)

A entrada do toreador Escamillo na "Carmen" é igualzinha à entrada do Rum Tum Tugger no "Cats".

12.12.09

Da relativização

Em dias como o de ontem, em que o Brent evolui no sentido contrário às minhas convicções, em que os mercados "spot" ficam mais líquidos do que previ, em que as correlações que incluem o dólar me são desfavoráveis, chego ao fim do dia deveras aborrecido com o mundo em geral e com a minha intuição em particular.

É em noites assim que normalmente deixo que o destino me conduza, abro os vidros para deixar entrar ar fresco, escolho a música que quero ouvir e sigo. Ontem calhou-me em sorte chegar mesmo a tempo de ouvir Domingos António (a propósito, meu caro, tomo a liberdade de lhe indicar duas pequenas falhas, uma logo no início da sonata nº 7 de Prokofiev e outra nos prelúdios, op 11, de Scriabin).

E, sei-o de experiência feita, há duas coisas que me comovem, me apaziguam, me fazem ver o mundo com outros olhos, me transformam em melhor pessoa: uma é a música, outra é um pedido de desculpas.

8.12.09

Visconde, em modo analítico

O problema é que, parecendo que não, a minha vida é bastante semelhante ao golo que o Liedson marcou ontem ao Setúbal, o segundo, ele marcou dois, o primeiro foi um golo de pura técnica, brilhante desmarcação, golpe de rins, esforço, logo, esse golo não é chamado para esta história, o que para aqui interessa é o segundo, o fiscal de linha assinala fora de jogo, a bola sai pela linha de fundo, o guarda-redes coloca de novo a bola em jogo, nos pés do Liedson, reparem, o Liedson não faz nada, é o guarda-redes adversário que lhe coloca a cola nos pés, o Liedson não pediu nada, estava ali sossegado da vidinha dele, a pensar em situações, cada uma mais problemática do que a outra e, a meio dessas cogitações, dá-se o facto de a sua visão periférica lhe indicar que está uma bola nos seus pés, nenhum defesa por perto e o guarda-redes está fora da baliza. E aqui, meus caros, normalmente as pessoas tendem a complicar, perdem tempo a pensar por que razão a bola está ali, olham segunda vez para a baliza, para se certificarem de que efectivemente ela está deserta, tendem a olhar em redor apenas para uma análise espacio-temporal dos jogadores adversários e, no preciso momento em que vislumbram toda a problemática, o defesa esquerdo desarma-os, limpinho. O Liedson, e é aqui que está o maravilhoso paralelismo que quero estabelecer entre o segundo golo do Liedson e a minha vida, o Liedson, detecta o contacto da bola com o seu pé, não perde tempo com hossanas à fabulosa situação que acaba de se lhe deparar e remata para a baliza deserta, sem falhar o alvo, one shot, ele provavelmente não terá oportunidade idêntica nos próximos trezentos jogos, parece fácil, é só chutar e fazer o golo, mas não é, noventa e sete por cento dos indivíduos perdem tempo precioso em segundas e terceiras avaliações da situação, fazem elaboradas análises de risco, quando o que que há a fazer é puxar o pé atrás e não falhar. Por hoje era só isto, agradecido.

7.12.09

Basicamente, é isto (revisited)


Há um ano, mais dia menos dia, eu com datas sou um desastre, com excepção das datas que realmente me interessam, há um ano, dizia eu, partilhava com um vasto auditório o que tinha nos bolsos. Hoje, faço o mesmo exercício, tiro tudo o que tenho nos bolsos, e vejo que poucas coisas mudaram. A carteira continua igual, foi-me oferecida por um velho amigo há alguns anos, o carro que conduzo é o mesmo, aliás, é uma carrinha, esqueço-me sempre que agora tenho uma carrinha, desapareceu o i-Pod, desapareceu a "pen", talvez seja um indício claro que as tecnologias me começam a aborrecer, o cartão agora é dourado, caramba, não podia deixar esta oportunidade de exibir a minha faceta pedante, o cartão de restaurante era o do "Mercado do Peixe" em Aveiro, parece que fechou, já lá tentei ir duas vezes, sem sucesso, ou fechou ou então fechas às terças, o cartão de restaurante (há sempre um cartão de restaurante na minha carteira) agora é do "Castas e Pratos", se eu fosse a vocês dava lá um salto, fica ali encostado à estação dos comboios do Peso da Régua, garrafeira excelente, e, espero que reparem na ambivalência, apesar do cartão dourado, tenho no bolso um cartão "Andante", o que significa que recentemente me desloquei utilizando transportes públicos em geral e o metro do Porto em particular, reparem ainda que abandonei o porta-chaves do Sporting, não quer isto dizer que o meu fervor clubístico tenha esmorecido, nada disso, foi apenas um abandono estratégico, estou sempre a abandonar o que me entristece, me deixa de rastos, me insulta a inteligência, finalmente aparece o cartão de passageiro frequente da Iberia, espero que notem o efeito distintivo, toda a gente tem o cartão de passageiro frequente da TAP, pois bem, eu tenho o da Iberia, sempre alimenta a ideia de eterno viajante, não é preciso que se saiba que a maior parte das viagens não são mais que o percurso Aeroporto-Hotel-Aeroporto. Ou seja, em resumo, olho para estas duas fotos, mais de um ano as separa e, em boa verdade, nada mudou nos meus bolsos.

6.12.09

Isto anda tudo ligado...

Eduardo consente frango monumental

'Chicken Lovers' é a nova campanha da McDonald’s

Das tardes de Outono

Amigo de longa data, daqueles que acreditam que sabem tudo sobre mim (erro crasso, nem eu sei tudo sobre mim), convenceu-me a uma jornada degustativa de vinhos do Novo Mundo. Este amigo, grande amigo, de longa data, tinha já decidido que eu me renderia às rolhas plásticas e à embalagem tetra-pak, que eu valorizaria apenas o néctar em si, o leve aroma frutado do vinho, a suavidade do toque de barrica francesa.

Acontece que, também nos vinhos, conta muito o ritual, não prescindo da rolha de cortiça, não prescindo do sabor a rolha que me faz provar o vinho e rejeitá-lo, o que representa, acto contínuo, receber uma palavra do escanção e ficar ali à conversa, a aprender mais, numa troca de saberes, não prescindo de inclinar a garrafa a quarenta e cinco graus, deter-me na beleza do rótulo, adivinhar a casta.

Fosse o vinho perfeito, com rolha absolutamente estanque, e não me restaria mais do que um "pode servir, está perfeito".

4.12.09

E estava ela, a mulher bonita, mais o saco de compras, mais o guarda-chuva (o que chovia hoje em Madrid, senhores!), mais o bebé de colo. E estava eu, que perguntei à mulher bonita se me permitia que a ajudasse, e ela, a mulher bonita, estendeu-me o guarda-chuva e o saco de compras e lá subimos as escadas e ela, a mulher bonita, disse "muchas gracias" e sorriu e lá fomos cada um à sua vida. E eu fiquei a pensar se a teria ajudado se ela não fosse bonita e concluí que sim, no fim de contas não sou má pessoa.

2.12.09

Dos sonhos

Esta noite sonhei que tinha o cabelo igual ao do George Michael, aquele cabelo que ele tinha ao tempo do "Do They Know it's Christmas?", naquela parte em que está o Phil Collins a tocar bateria de ascultadores nos ouvidos e um pull-over aos losangos, sem mangas, eu afogueado, imagino-me a esbracejar, em sofrimento por ter um cabelo igual ao do George Michael, ainda se fosse o cabelo do George Michael ao tempo do teledisco do "Last Christmas", naquela parte em que saem do Jeep, sempre era um cabelo mais composto, caramba, um cabelo igual ao do George Michael não se deseja ao pior dos inimigos, este sonho é pior do que o outro, recorrente, em que conduzo um Porsche cor de laranja, já não bastava ser um Porsche, tinha que ser cor de laranja, felizmente era só um sonho aquilo do cabelo igual do George Michael ao tempo "Do They Know it's Christmas?", ainda assim levantei-me de propósito só para confirmar que sim, que continuo com o meu bom velho cabelo igual ao do George Clooney, mas em melhor.

1.12.09

Nem eu, que sou eu, concordo com isto...

"Amizade com uma mulher é impossível. Há sempre a sombra do sexo".

Pedro Mexia, na revista do Expresso

Isto anda tudo ligado...

Georges Bizet, Carmen, nuova produzione Teatro alla Scala

Direttore: Daniel Barenboim

29.11.09

Com granizo, e assim...

Este é o meu fato de neoprene.

Este é o rio Paiva.


Fomos felizes, hoje.

26.11.09

À noite, no Santiago Bernabeu, já estava com pior ar...

Se o Alfaiate Lisboeta estivesse ontem em Bilbau, eu com o meu fato às riscas, rigorosamente sem vincos, escutando com ar grave as explicações detalhadas que o anfitrião debitava sobre os trabalhos de Lloyd Wright expostos nas paredes do Guggenheim, sobretudo de cachemira pendurado na mão, de certeza que me tirava um retrato.

25.11.09

Só a mim...

... é que ninguém deixa um comentário a dizer "Tens um miminho no meu blog ;)".

22.11.09

Sermão da manhã

De acordo, o que as distingue de nós será o sexto sentido, nós somos inteligentes, elas também, nós somos extremamente sensuais, elas também, nós temos um fantástico sentido de humor e algumas delas, poucas, cada vez menos, também. Sobra então o sexto sentido, de acordo, o que falta explicar é que nem sempre o sexto sentido faz delas mulheres realmente extraordinárias, a questão é saber o que fazem elas com o sexto sentido, como o utilizam, como doseiam o sexto sentido sem descurar os outros, como se deixam guiar pelo feeling sem deixar de dar atenção aos outros sentidos, afinal o sexto sentido é uma dádiva, é um acrescento dos deuses, se o sexto sentido lhes indica um caminho, é quase obsceno não o validarem com a ajuda dos outros sentidos, os básicos, aqueles que até um homem tem, caramba, são mais cinco, o sexto é um plus, é verdade que o Messi é melhor que os outros, tem o tal plus, jogasse o Messi futebol feminino e haviam de lhe chamar o sexto sentido, embora não lhe servisse de nada, no futebol feminino todas teriam o sexto sentido, mas o que distingue o Messi não é saber dar nós cegos na defesa nem é rematar de qualquer ângulo ou de qualquer distância, nem sequer é saber estar no sítio certo, a bola chega-lhe sempre direitinha, o que distingue o Messi é saber calcular, ao mesmo tempo, a distância a que está o guarda-redes, a altura da relva, a velocidade dos ventos dominantes no local de onde remata e os ventos cruzados vinte metros à frente, onde a bola há-de entrar na baliza, calcular a velocidade e a distância do defesa esquerdo mais próximo, cruzar esses dados com a informação das eventuais lesões recentes que retirem velocidade de ponta ao defesa central que se aproxima e, finalmente, decidir pela coisa certa, que poderá ser picar a bola por cima, rematar em trivela ou fintar mais dois ou três adversários antes de passar a bola ao Henry. Chama-se sexto sentido, é usar com parcimónia ou então a evolução das espécies se encarregará de o retirar das gerações vindouras, já que não lhes serve para nada, é uma espécie de apêndice, podendo ainda dar-se o caso, nunca se sabe do que é capaz o todo-poderoso, de, por castigo divino, lhes retirar outro dos sentidos, fosse eu o criador e tirava-lhes a audição, que, vendo bem, também de pouco lhes serve. Ide em paz.

21.11.09

E também não gosto quando ouço dizer de mim que "sou simpático"

O pior que podem dizer de mim é que sou "um tipo impecável", caramba, isso inclui-me no grupo do tipos como o César Peixoto na fase pré Diana Chaves e pré Isabel Figueira, no grupo dos tipos que trabalham na Caixa Geral de Depósitos que explicam a diferença entre a Euribor a 3 e a 6 meses às velhinhas que só querem actualizar a caderneta mas que, já agora perguntam sobre isso da Euribor porque a vizinha de rés-do-chão esquerdo foi numa excursão à Marinha Grande e não pode conversar hoje, isso inclui-me no grupo dos tipos que param na segunda circular para ajudar a boazuda a mudar o pneu furado e depois, punhos da camisa branca sujos de pneu, saem de cena porque já estão atrasados para uma reunião e nem sequer aceitam o número de telemóvel rabiscado num papel que a boazona lhes tenta enfiar no bolso do casaco, estavam ali só para ajudar, isso inclui-me no grupo dos tipos que colocam poemas nos blogs, um poema para cada estado de espírito, Cesariny se o Henry Hub subiu mais de um dólar, Sá Carneiro se o Benfica perdeu, os tipos impecáveis são todos do Benfica, Al Berto se lhes apeteceu durante o dia experimentar algo de novo com o Simões das fotocópias, isso inclui-me no grupo dos amigos e conhecidos do André Villas-Boas, isso inclui-me no grupo dos tipos que apreciam Cutty Sark de cinco anos com duas pedras de gelo, servido em copo de boca fechada.

20.11.09

19.11.09

Ósculo

Estou capaz adoptar uma palavra em vias de extinção.

Adopte você também a sua.

18.11.09

FYI: Hoje o Brent fechou a 78,79 USD/bbl.

Há um sítio fantástico, que me recorda que faz hoje um ano que escrevi isto:

"Um dia, algures no Verão, estava o Brent a negociar a mais de cento e quarenta e cinco dólares por barril, e eu a apostar num Brent a duzentos dólares por barril no fim do ano. Um amigo meu, também Visconde, assegurava-me que o ficava mesmo bem na minha vida era ter um blog. Eu, que não sou de modernices, ri-me e disse-lhe que havia de ter um blog no dia em que o Brent valesse menos de cinquenta dólares por barril. "Mais valia dizer que não está a pensar ter um blog" riu também o meu amigo, Visconde como eu, erguendo a sua taça de Piper-Heidsieck e não pensando mais no assunto.

Hoje o Brent fechou a quarenta e nove dólares e dezoito cêntimos... "

Às vezes apetece-me dinamitar isto de uma vez por todas. Outras não.

16.11.09

E afinal não tem nada a ver...

Foto: Visconde de Vila do Conde

Até há uns dias, o meu conceito de "viajar de helicóptero" era aquele momento que acontecia algures entre o terceiro e o quarto gin tónico, se acontecesse levantar-me repentinamente.

15.11.09

Carvalhal? Carvalhal?!!!

Até ontem, o melhor que se arranjava era um tipo que nunca ganhou um jogo. Fez uns recados para o Mourinho, ia ver uns jogos, assentava num caderno que ele lá tinha o que os jogadores adversários eram capazes de fazer, coisas assim. Tinha melhor ar que o Paulo Bento, caramba, até eu, nos meus dias, tenho melhor ar que o Paulo Bento, mas a verdade é que até hoje nunca ganhou um jogo. Um tipo que se referia a si próprio na terceira pessoa do singular (e agora deram-me umas saudades do Jardel...), era isto o melhor que se arranjava.

E agora isto do Carvalhal. E, de repente, o tipo que nunca ganhou um jogo, parece-me que teria sido melhor escolha.

Escolhe tu o dia

Eu decido o resto.

13.11.09

E assim voltamos aos posts curtos

Se alguém hoje me pedisse para ouvir o que tenho no iPod, seria o fim de uma lendária imagem de bom gosto musical.

10.11.09

Hoje estou capaz de escrever um post longo, só para desenjoar

No curto espaço de menos de dez minutos, por uma estranha coincidência astral, por uma inenarrável conjuntura organizativo-espacial, a que não terá sido indiferente o meu posicionamento estratégico em geral e o gosto musical do taxista que fez o percurso Barajas-Plaza Mayor em particular, em menos de dez minutos, reparem bem na dimensão "tempo", tive contacto auditivo com o "This is it" do Michael Jackson e o "This is us " dos Backstreet Boys, o que, não desfazendo, é coisa para me abalar o dia, preferiria mil vezes discutir a problemática da situação do Cristiano
Ronaldo ser ou não convocado para jogar, incluindo-se aqui o efeito "Pepe, o Bruxo", e reparem como escrevo "Bruxo" e não "bruxo", com estas coisas convém sempre ter cuidado, eu não quero prejudicar a fulgurante ponta final de campeonato que levará o Sporting ao título de campeão este ano só por ter desdenhado das potencialidades de Pepe, o Bruxo, aliás Don Pepe, El Gran Brujo, mas dizia eu que preferia falar da problemática Cristiano Ronaldo em vez de escutar estas duas pérolas, ainda para mais em apenas dez minutos, toda a gente sabe que dez minutos não são suficientes para recuperar, isto nos homens, lá está, porque as mulheres diz que recuperam mais depressa, isto é a voz do povo que diz, não sou eu, mas acontece que, entrando eu no dito táxi a meio de uma extremamente importante conversa ao telemóvel, cuidou o taxista que o melhor seria atacar a Cadena Ser, só para eu ficar ciente de que ali, naquele táxi, naquele Skoda Octavia, quem mandava era ele, o taxista, como se eu me importasse, o meu conceito de felicidade cada vez mais passa por não mandar, o que me apetecia mesmo era transformar-me em homem-objecto, mas isso agora interessa pouco, o que é relevante é que me deu vontade de ouvir o "This is not a love song", isso mesmo, desses que, assim a saúde mo permita e a minha secretária não me arranje outro sítio para estar, estarão defronte de mim no dia 4 de Dezembro, ali por alturas da Aula Magna.

8.11.09

Tio Lancastre

Um dia convenci-me que havia de impressionar o Tio Lancastre. No casino apostei no quatro vermelho e saiu o quatro vermelho, depois joguei na bolsa no dia antes do Dow Jones atingir máximos, finalmente, com uma mão com um straight que começava num dois de paus, ganhei uma pequena fortuna.

O Tio Lancastre assistia imperturbável, enquanto fumava tranquilamente o seu Partagas Quando me preparava para voltar à roleta e apostar de novo no quatro vermelho, puxou-me de lado e sussurou-me ao ouvido:

"Meu rapaz, se deseja verdadeiramente impressionar-me talvez seja melhor tentar algo verdadeiramente excêntrico. Sugiro que tente perceber as mulheres".

Afastei-me da mesa de jogo, troquei as fichas e voltei para casa sozinho. Conheço as minhas limitações.

6.11.09

Um dia, quando menos esperar...

Se as contas não me falham, e normalmente não falham, cumpriu-se hoje a minha aterragem número cinquenta em Lisboa, este ano.

Mais uma vez, não havia nas chegadas ninguém com um cartaz a dizer "Mister Visconde From Vila do Conde".

Parecendo que não, é desagradável.

Eu achei ternurento...

O animal que seguia na coxia apalpou discretamente o rabo da assistente de bordo e, quando ela o encarou, ele sorriu.

A assistente de bordo entornou meio litro de café na camisa imaculada do animal que seguia na coxia, enquanto o servia. E também sorriu.

5.11.09

Eu ainda sou do tempo...

Ventspils em Alvalade

Temos então Jimmy Choo nas lojas H&M.
Resta-nos o quê?
Maserati vendido nos concessionários Kia?
Barca Velha disponível no Lidl?
Ou gasolina Galp à venda nas estações de serviço do Continente?

2.11.09

Conhecem?

Aquela sensação de desafiar as paramétricas dos últimos dois anos de cotações de Brent e Arabian Light, o Brent sempre a cotar acima do Arabian Light, nós a apostarmos que este ano havia de ser ao contrário, que se fodam as paramétricas, e acontecer mesmo o Brent passar todo o ano a cotar abaixo do Arabian Light mais de três dólares?

Não conhecem a sensação? Pois...

1.11.09

Serviço público, vai haver muito quem cite John Peel

John Peel foi um dos mais ecléticos divulgadores de música e, através das suas "Peel Sessions", na Radio One da BBC, lançou centenas de nomes desconhecidos para o grande público que se transformaram em bandas respeitadas, aliás, Peel foi o primeiro a passar "demos" de bandas no seu programa de rádio.

Há alguma informação interessante aqui.

John Peel morreu em 2004, de problemas cardíacos, enquanto viajava pelo Peru.

Que descanse em paz, meu caro.

Hora do Lobo, Lança Chamas e, principalmente, o Som da Frente, ditos com aquela aquela voz de autor, escorreita e sabedora ficarão para sempre na minha memória.

Manual de descodificação da intrincado código comunicacional dos indivíduos do género feminino (I)

Lição 1 - Como responder a um SMS com os dizeres "Gostava de estar nos teus braços neste momento"

Possibilidade A - Parar tudo o que se está a fazer e ir directo para casa dela

Comentário - Errado. Ela não está em casa, é dia de ir almoçar com aquela amiga das segundas-feiras, somos uns desmiolados, nunca nos lembramos que às segundas-feiras é dia de almoçar com a amiga das segundas-feiras.


Possibilidade B - Ligar imediatamente, um SMS destes é para ser respondido, caramba, ela gostava de estar nos nossos braços, o mínimo é ligar-lhe para lhe dizer que sim, também nós queríamos estar nos braços dela.

Comentário - Errado. Ela desligará, está numa reunião importante. Mais tarde reclamará, que nós sabíamos que ela não podia atender, áquela hora nunca pode atender, somos uns desmiolados.

Possibilidade C - Responder, também por SMS, "Sim, seria fantástico, a lareira estaria acesa, beberíamos um bom vinho tinto, ...".

Comentário - Errado. Receberemos um SMS de resposta a dizer que só pensamos em sexo, sempre a mesma coisa, não aprendemos nada, continuamos os mesmos imbecis de sempre.

Possibilidade D - Enviar mensagem automatica por SMS "Que ideia deliciosa, meu amor", enquanto se bebe mais um gole de Super Bock, não tirando os olhos da Sport TV.

Comentário - Certo. Ela lerá a mensagem, sorrirá, coração aconchegado, dará um suspiro profundo enquanto pensa "Ele é tão doce...".

31.10.09

Eu também ando a escrever sempre o mesmo post

"Regressaram aonde estavam siva e parvati e entregaram-lhes a cabeça do elefante, a qual foi colocada no corpo de ganeixa, trazendo-o de novo à vida. E foi assim que nasceu ganeixa depois de ter vivido e morrido. Histórias da carochinha, resmungou um soldado, Como a daquele que, tendo morrido, ressuscitou ao terceiro dia, respondeu subhro, Cuidado, cornaca, estás a ir longe de mais, repreendeu o comandante,..."

José Saramago, in "A Viagem do Elefante"

O Tio Lancastre não diria melhor...

"Charme é a qualidade nos outros que nos torna mais satisfeitos connosco mesmos"



Henri Amiel, filósofo suiço

30.10.09

Dos dias de trabalho

Se eu podia ir a Madrid e não jantar na esplanada do Jose Luis uns revueltos com gambas, picar um queijo manchego e um presunto pata negra, devidamente acompanhado por um Rioja, enquanto leio tranquilamente o La Vanguardia?

Podia.

Mas não era a mesma coisa...

Se, ao menos, ela tivesse escolhido Bécaud...

27.10.09

Dez segundos

Ela é mesmo muito bonita, caramba, há muito tempo que não via uma mulher assim tão bonita, não é que seja do tipo fatal, nada disso, é sóbria, tem aquele je ne sais quoi que me fascina, o cabelo dela é fantástico, usa aqueles óculos rectangulares, de massa preta, ela falou, que suavidade, está mesmo à minha frente, cheira maravilhosamente, o decote está no ponto certo, o fato saia-casaco é de bom corte, céus, que mulher bonita, espera, vai para a secção de música, detém-se, pega num CD, ela pegou num CD de Michael Bublé, está a sorrir, vai mesmo levá-lo, bem, afinal é uma mulher que não é nada de especial, diria que é até um bocadinho vulgar, há muito tempo que não via uma mulher tão decepcionante.

O que vejo da minha janela (IX)

Paris

Foto: Visconde de Vila do Conde

26.10.09

No entanto, mereci um segundo olhar de algumas delas (é o que acontece quando estou com o meu sobretudo igual ao do Moustaki num dia com 30 ºC)

Hoje, enquanto esperava do lado de fora da Louis Vuitton que uma boa amiga se decidisse por uma das duas possibilidades que lhe tinha sugerido, verifiquei que novecentas e noventa e oito mulheres em cada mil que passavam naquela rua movimentada não me despertavam qualquer vontade de as apreciar com um segundo olhar.


Isto é capaz de ser indício de qualquer coisa. Como de costume, não sei bem o quê.

E, no entanto, neste bracinho não entrará nenhuma agulha...

Acabam de me informar que faço parte do grupo-alvo que receberá "A Vacina" numa primeira fase (não sou profissional de saúde, não estou grávido e, hossana, não sou titular de órgão de soberania).

A sensação é mais ou menos a mesma que era ter um telemóvel há quinze anos e colocá-lo em cima da mesa quando se ia jantar com os amigos, esperando ansiosamente que tocasse.

25.10.09

Tio Lancastre

Ninguém entrava no escritório do Tio Lancastre sem um bom motivo. Fazê-lo interromper o seu Cohiba Lanceros, fazer com que o Tio Lancastre ficasse a meio do seu Old Bushmills sem gelo, fazê-lo interromper a audição do Turandot, tinha que ser um caso de urgência extrema.

Uma noite, com a certeza que o motivo o justificava, entrei no escritório do Tio Lancastre. Tocava Dvorak, o Nocturne, pelo que intuí que o Tio Lancastre não estaria em nenhum período de grande reflexão. Quando me viu fez um leve sinal com a cabeça, que me deu ânimo para avançar.

Perguntei-lhe se me aconselhava a ser não ser absolutamente transparente com as mulheres, a fazer de conta que sou aquilo que não sou, só para lhes agradar. Que não, respondeu-me o Tio Lancastre, aconselhando-me longamente a não abdicar das minhas idiossincrasias, a jamais adbicar da minha identidade, a ser absolutamente inflexível nos meus princípios.

Aceitei o conselho do Tio Lancastre, sempre sábio. Mas, por uma vez, ele não estava certo...

Será maturidade, será...

Às vezes fico a pensar porque prefiro as que calçam Louboutin em vez de Jimmy Choo.

E também vou ver os U2 (ainda há bilhetes para o concerto de Munique, quem é amigo, quem é?...)

Depois eu conto como foi

24.10.09

Acabei de ler Caim, para que exista contraditório vamos ver a passagem do Evangelho segundo S. Marcos que amanhã será lido nas igrejas

"Depois chegaram a Jericó. E, ao sair ele de Jericó com seus discípulos e uma grande multidão, estava sentado junto do caminho um mendigo cego, Bartimeu filho de Timeu. Este, quando ouviu que era Jesus, o nazareno, começou a clamar, dizendo: Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim! E muitos o repreendiam, para que se calasse; mas ele clamava ainda mais: Filho de Davi, tem compaixão de mim. Parou, pois, Jesus e disse: Chamai-o. E chamaram o cego, dizendo-lhe: Tem bom ânimo; levanta-te, ele te chama. Nisto, lançando de si a sua capa, de um salto se levantou e foi ter com Jesus. Perguntou-lhe Jesus: Que queres que te faça? Respondeu-lhe o cego: Mestre, que eu veja. Disse-lhe Jesus: Vai, a tua fé te salvou. E imediatamente recuperou a vista, e foi seguindo pelo caminho."

Reparai, a primeira problemática que aqui se depara é que os males do mundo parecem cair todos sobre um único homem. Como se já não bastasse ser mendigo, ainda por cima cego, este bom homem ainda tem um pai de má índole, que, para se vingar de ter sido baptizado como Timeu baptiza o filho ceguinho com o nome de Batimeu.

Ora Batimeu, ao ouvir que Jesus passava por ali (reparem na precisão de Mateus, se tivesse escrito que Batimeu VIU Jesus passar por ali retirava qualquer credibilidade ao milagre, uma vez que Batimeu via Jesus antes deste fazer o milagre e, consequentemente, já não havia lugar a um milagre que devolvia a visão a um homem que conseguia ver), Batimeu, dizia eu, clama por compaixão. Os seguranças de Jesus mandam calar Batimeu, mas como Batimeu não os vê, logo não tem imagem visual de meia dúzia de tipos entroncados, bíceps hiperdesenvolvidos e cabelo rapado, Batimeu continua a clamar como se não houvesse amanhã.

E que faz Jesus? Se fosse o Deus castigador de que fala Saramago, mandava os seguranças dar um enxerto de porrada em Batimeu, castigando-o pela sua impertinência, por estar a perturbar a oração que Jesus estaria a fazer. Mas não, Jesus quer saber o que pretende o cego. E Batimeu, que era cego mas não era paraplégico, levanta-se de um salto e vai ter com Jesus (naturalmente, e mais uma vez para salvaguardar a veracidade do milagre, aceitemos que Batimeu é conduzido por terceiros até Jesus, aqui Marcos não foi tão prudente na narrativa). E Jesus, magnânimo, pergunta-lhe o que pretende, reparem, Jesus aqui arrisca bastante (ou não, talvez Jesus soubesse qual a resposta de Batimeu), mas, se Jesus me perguntasse a mim o que eu desejava, talvez eu tivesse escolhido um Barca Velha do ano em que eu nasci, acompanhado por três gémeas enfermeiras ninfomaníacas (eu escrevi "talvez", note-se que eu aqui não sou conclusivo, talvez acabasse por escolher a paz no mundo, nunca se sabe) e, cá está a prova de que Saramago está errado quando se refere a um Deus feroz, caramba, Jesus faz a vontade de Batimeu, que lhe tinha pedido a visão, caramba, se isto não é bonito, bem sei que sou um sentimentalão de coração fraco, mas se isto não deita por terra a tese de Saramago, então não sei se não teremos que nos socorrer do milagre das Bodas de Canã...

23.10.09

Monty Python. 40 anos. Hoje.

Saio da Bertrand com o Bolaño para oferecer a uma boa amiga.

Sei que ela só lê nos transportes públicos e tem problemas de coluna.

Às vezes penso que devia ter um sentido de humor do tipo que aprecia o Camilo de Oliveira.

E aposto o que quiserem que o Rodrigues dos Santos estará ladeado por dois montinhos do Corão.

Na FNAC do Colombo, colocaram o monte das caixas metálicas com o Caim lá dentro (eles agora vendem o Caim em caixas metálicas, por menos de vinte euros leva-se o Caim, mais o Evangelho segundo Jesus Cristo e, evidentemente, a própria caixa metálica), dizia eu que o monte das caixas metálicas do Caim está entre dois montes de Bíblias.

Parece-me de gosto duvidoso.

(mas isto, lá está, sou eu que nunca tive qualquer sentido de estética, é olhar por mim abaixo e vê-se logo que esta gravata Chanel com bolas vermelhas não conjuga mesmo nada
com este fato Zegna com riscas verticais).

22.10.09

E sim, a música que se ouve em fundo é o Requiem. E, isto sim, tem uma mensagem subliminar.

Foto: Visconde de Vila do Conde

Em se vindo da Cathédral de Saint-Pierre, subindo pela Jean Jaurés e virando à direita chega-se direitinho ao Bar do Pilori. Já fui feliz no Bar do Pilori. Um dia destes aconteceu-me apetecer voltar ao Bar do Pilori, só para ter a certeza que uma Hoegardeen, provavelmente a melhor "blanche" jamais inventada, ainda me sabia ao mesmo.


Estava fechado, o Bar do Pilori. Qual é a mensagem subliminar disto? Provevelmente nenhuma, a não ser que me deu uma vontade enorme de beber um Old Bushmills sem gelo, o que vou fazer neste preciso momento. Old Bushmills e Hoegardeen? Ora, isto anda tudo ligado, perguntem a quem quiserem...

21.10.09

Calma, o post é do Horácio Inácio...

Foda-se, mas alguém é capaz de me explicar o que é essa merda do "Anúncio do Pingo Doce"?

20.10.09

Não deixa de ser divertido...

...pensar que o livro do Saramago vai ser um sucesso de vendas ... no Natal.

19.10.09

Não é que me apeteça falar desta problemática...

Fraqueza. Náuseas. Calafrios. Desconforto geral. Vómito. Ardor nos olhos. Garganta dorida. Dor de cabeça forte.

(Não, não estou com Gripe A. É como fico de cada vez que vou a Alvalade.)

17.10.09

Dos livros

Eu que já li setenta por cento dos livros do Top 10 desta semana da Bertrand e da Bulhosa, caramba, isto inclui o último do Philip Roth e o último do Sepúlveda, embora o último do Sepúlveda não me tenha demorado mais que um serão, nem devia contar para a estatística, isto inclui mesmo o último do Dan Brown, mas atenção, no original, comprado em Barajas, o que, parecendo que não, dá uma certa dignidade ao Dan Brown, isto, não incluindo o livro da Judite de Sousa, inclui o do Júlio Magalhães, eu que vou quase na página vinte do último do Lobo Antunes, aquele que tem um título com mais letras que muitos livros, nomeadamente o último do Sousa Tavares, eu que me estreei no Zimler, eu, meus caros, não li ainda Bolaño.

E isto faz de mim um homem sem tema de conversa quando se fala de livros.

16.10.09

Que isto anda tudo ligado...

Acabo de verificar que "A Vida de Brian" está encostadinho ao "Os Dez Mandamentos" na minha videoteca.

Alguém lá em cima certamente não gostou disto.

Está explicada a minha semana.

15.10.09

E, de repente...

... toda a gente julga saber o significado de um três invertido.

13.10.09

Tarte de Mirtilhos

Se a vida podia correr razoavelmente nos dias em que não te ofereço um café?

Poder, podia.

Mas não era a mesma coisa...

Às vezes penso que o devia trazer pendurado ao pescoço


5.10.09

Para memória futura

Quando eu ficar senil, sem dizer coisa com coisa, gostaria de, quando me perguntarem qual foi o pior filme português que vi na vida, não me esquecer de responder "Aquele Querido Mês de Agosto".

Muito pior que "Arte de Roubar". Francamente pior que "Corte de Cabelo", o que é obra.

Era só isto, obrigado.

3.10.09

Dos homens que choram

Lá por eu não chorar, toda a gente sabe que eu não choro, não quer dizer que não tenha ficado com os olhos húmidos quando ouvi o discurso do Lula, depois do Rio ganhar os Jogos.

Mas, lá está, ficar com os olhos húmidos não é chorar.

De onde se fala de Polanski sem falar em Polanski

Morreu ontem Marek Edelman, o último dos heróis do gueto judeu de Varsóvia, um dos mais fantásticos exemplos de resistência colectiva, duzentos homens praticamente sem armas de um lado, o exército alemão do outro, morrer em Treblinka ou morrer resistindo.

Hoje é um bom dia para rever "O Pianista".

28.9.09

Da tentação do abismo

Começo a viciar-me nisto de confiar numa nota breve que a secretária me estende e, dependendo dos dias, de um briefing do que se vai passar daí a momentos, ditado em passo apressado, eu já atrasado para a reunião, copo de café na mão, a fingir que absorvo as palavras-chave que ela vai debitando.

Depois, vistos os números e as projecções e os forecast, decidir. E decidir confiando menos nos números e mais no meu feeling, as cabeças que se viram na minha direcção, desconfortáveis pela decisão sem o respaldo dos números, sem o conforto dos powerpoint preparados por consultores.

Neste momento, sozinho no escritório, James bem alto nos ouvidos, gravata atirada para um canto, mangas arregaçadas, penso que um dia sou capaz de me foder.

Hoje ainda não foi o dia…

Bécaud, Gilbert Bécaud

25.9.09

Visconde, em Modo Ponderativo

Voar de Lisboa a Pequim. Comboio de Pequim a Moscovo. Voar de Moscovo a Lisboa.

Hum.

Estou capaz de ponderar isto.

24.9.09

Das coisas que eu penso que sei

Hoje aprendi que o Nilo não nasce no Lago Vitoria, como sempre pensei. No lago Vitoria nasce o Nilo Azul, que se junta ao Nilo Branco por alturas ali do Sudão. Parecendo que não, isto é importante, afinal podia apostar tudo o que tenho em como o Nilo nascia no Lago Vitoria. E perdia.

Being Visconde de Vila do Conde

Ora o que a seguir ia contar aconteceu, se não me falha a memória, no dia seguinte a alguém me ter dito que acabei por incorporar no meu verdadeiro self a inexpressividade, aconteceu dois dias depois de alguém me ter chamado a atenção para as desvantagens da minha arrogância e, se me lembro bem, aconteceu três dias depois de me terem chamado de parte para me levarem a corrigir a atitude vagamente sobranceira e ocorreu precisamente uma semana depois de me terem comunicado que as pessoas em geral me acham intimidatório.

O que eu ia aqui contar aconteceu hoje, portanto.

As mulheres...

...gostam de homens com dramas existenciais, mentes tortuosas, ar grave, dúvidas filosóficas, discursos densos, elaborados, vidas sofridas e corações amargurados, nós cegos na cabeça que só elas, as mulheres, sejam capazes de desatar e, assim, salvá-los de uma vida de psicanálise eterna.

É por isso que eu às vezes tenho que fingir que sou um tipo que se preocupa com as coisas.

15.9.09

Da política

Acompanhei ontem o programa que dava voz aos pequenos partidos que concorrem às legislativas. Dez partidos, duas horas de programa.

Acho que percebi, finalmente, o conceito do "Twitter"

13.9.09

Dos Beatles

Por circunstâncias que não é conveniente enumerar neste momento, tive ocasião de assistir à ante-estreia do espectáculo de tributo aos Beatles que vai acontecer um dia destes no Coliseu de Lisboa.

Aconselho, chegam ao pormenor de o vocalista se parecer bastante com o Paul McCartney (ou com o John Lennon, eu nunca os soube distinguir).

11.9.09

Oito anos



Fotos: Visconde de Vila do Conde

O Tio Lancastre não o diria melhor

"O que menos ama é o verdadeiro motor de uma relação."

(cito de ouvido, recuso-me a identificar o filme em que foi dito)

10.9.09

Contaram-me

Há um restaurante afrodisíaco no "Freeport".

Não há nenhuma loja que venda Senhoras de Fátima, daquelas que ficam luminosas durante a noite, no Red Light District.

Não há nenhuma loja dos trezentos nos Champs Elysées.

Não há nenhuma casa de alterne na cidade do Vaticano.

Mas há um restaurante afrodisíaco no "Freeport".

8.9.09

Disto ninguém fala nos debates, não é?

É absolutamente intolerável que as agências de viagens, em pleno Setembro, não disponibilizem ainda os programas de férias de neve para a próxima temporada...

7.9.09

Para não falar que agora tenho que comprar frascos de Dunhil de cinquenta mililitros.

Foram hoje condenados os tipos que pretendiam, em 2006, rebentar uns tantos aviões, misturando explosivos líquidos.

Que os anos de condenação a trabalhos forçados sejam os mesmos que, desde esse dia, estes imbecis nos fizeram perder na área de segurança dos aeroportos.

E se alguém me entrasse no computador e visse?

Reparo que nos "Favoritos", na pasta "Informação", só tenho dois links, um para o "Record", outro para a "Bola". Isto não anda nada bom, eu estou farto de o dizer, mas ninguém me liga.

Abençoados sejam...

...os locutores de rádio que anunciam que a próxima música é dos "Deolinda".

Dá sempre tempo para um homem mudar de estação.

6.9.09

Fase Um

Aos sessenta e dois convites para o Facebook, é capaz de não ser má ideia ir ver o que é isso do Facebook.

We'll always have Alcochete


Foto: Visconde de Vila do Conde

3.9.09

Da nostalgia

A primeira vez que dormi em Paris, fiquei nos relvados do Champ de Mars.

A última vez que dormi em Paris, fiquei num hotel agradável.

A primeira vez foi muito melhor. Não sei se isto é um sinal, mas, se for, que não seja sinal que estou a abichanar.

2.9.09

Cinco dias, quatro noites, Inverno nos Andes

De vez em quando dou por mim a pensar na aventura de Henri Guillaumet, um dos pioneiros da Aeropostale, cinco dias e quatro noites a pé, nos Andes, depois de ter espatifado um Potez 25, motor Lorraine de 12 cilindros. Saint-Exupery, esse mesmo, também piloto da Aeropostale, havia de falar da aventura de Henri Guillaumet em "Terre des Hommes" que, depois de "Vol de Nuit" é capaz de ser o seu melhor livro. Cinco dias e quatro noites, não sei se me estou a fazer entender, pleno Inverno nos Andes, o Potez 25 virado ao contrário, só o homem e o seu casaco de cabedal, cinco dias, quatro noites a andar, sem material de escalada, a fazer o impossível. Salvou-se, « Ce que j'ai fait, je te jure, jamais aucune bête ne l'aurait fait», dizia ele a Saint-Exupery, esse mesmo, que o foi resgatar à aldeola onde Henri Guillaumet acabou por chegar, cinco dias e quatro noites depois.

Podia ter dito que se salvou porque era forte, porque nunca deixou de acreditar, porque os pilotos da Aeropostale eram preparados para sobreviver. Mas não, disse que sobreviveu porque pensou numa mulher. Se isto não é uma história de amor, então não sei nada sobre histórias de amor.

31.8.09

30.8.09

E não me venham dizer que o Boudin de volailles et ris de veau não acompanha bem um Pauillac de 1987...

No exacto instante em que o Usain Bolt recebia um cheque de cem mil euros por ter corrido os cem metros em nove segundos e não sei quê, encomendava eu, no hotel do Casino de Berna, um Boudin de volailles et ris de veau sur lit de choux-verts étuvés, pommes charlottes rissolées, sauce moutarde à l’ancienne, acompanhado por um bastante razoável Chateau Latour (já agora, um Pauillac de 1987...). Fiquei a pensar que é por estas e por outras que eu nunca chego a lado nenhum, o Usain Bolt a receber um cheque, fruto do seu incomensurável esforço e eu ali no restaurante do Casino a entreter-me com um Pauillac de 1987...


Foto: Visconde de Vila do Conde

Talvez seja eu que não estou a ver bem as coisas...

...mas acho que o Philip Roth e o Paul Auster escrevem igualzinho.

Destas últimas semanas (I)

Foto: Visconde de Vila do Conde

Não sendo uma impossibilidade estatística, a verdade é que talvez nunca venha a passar uma noite com a Paris Hilton. Entretanto, ninguém poderá dizer que nunca dormi uma noite no Hilton de Paris...

29.8.09

Basicamente, foi isto...


Foto: Visconde de Vila do Conde

4.8.09

Regras para ser uma sumidade da blogosfera

Regra 1 - Invocar a sua condição de veterano da blogosfera. Mesmo que se tenha um "babyblog" que dá boa nota de cada fralda mudada ou então um daqueles blogs em que partilhamos com o mundo o que comemos ao pequeno almoço, invocar que se é um veterano das lides dá sempre outro estatuto. Se alguém nos diz que "anda nisto dos blogues há seis anos", não podemos deixar o desaforo sem resposta, é invocar vinte anos de blogosfera. Há vinte anos não existia blogosfera? Bem, mas há vinte anos já jogávamos Tetris e toda a gente sabe que o Tetris é o tio-avô dos "blogs".

Regra 2 - Comunicar ao mundo que se teve um problema com o "lay-out" do blog e que quem nos desenrascou foi o Paulo Querido (nem por sombras pensámos em contactar o operador do serviço). Meu caro Querido (desculpe, trato sempre as pessoas pelo apelido), não tenho o gosto de o conhecer, mas se o meu caro ajuda altruisticamente todos os "bloggers" que lhe manifestam público reconhecimento pela rápida e preciosa ajuda que lhes prestou, daqui lhe rendo as minhas subidas homenagens.

Regra 3 - Referir-se a "bloggers" de referência (o que quer que isso seja ...) pelo nome próprio e não pelo "nick". Dá uma ideia de ser visita lá de casa. Por exemplo, em vez de se referirem a mim dizendo "O Visconde tem um tremendo gosto para escolher vinhos brancos que acompanhem ameijoas à la plancha", dizer "O Bernardo Vasconcellos e Souza tem um tremendo gosto para ...".

Regra 4 - "Linkar" toda a gente, principalmente aqueles que nos parecem ser mais aceites pela comunidade. Por exemplo, "linkar" o Abrupto dá-nos uma sensação de proximidade com o Pacheco Pereira idêntica à que sentimos em 1983 quando o tipo do restaurante em que jantámos nos disse que, precisamente na mesma mesa, tinha almoçado no dia anterior a Mónica Sintra.

Regra 5 - Escrever um post por dia com "links" de opiniões de "bloggers" sobre um tema, sem dar a sua própria opinião. Por exemplo "Manecas Dias da Cunha escreve isto, em resposta a Joana Souza Telles que já havia dito isto, não tão bem escrito como Thiago Menezes da Cunha que escreveu esta delícia em complemento a esta aboradagem original de Sofia Motta".

Regra 6 - Escrever títulos em inglês. Da lista que se segue, escolher um título por semana: "Long story short"; "Read my lips"; "Total turn-off"; "Been there, done that"; "Pardon my french".

Regra 7 - Escrever pelo menos um post mensal sobre o Principezinho. Ainda que não se tenha lido mais livro nenhum na vida, invocar o Principezinho é o caminho certo para passar uma imagem de sensibilidade. Cai bem.

Regra 8 - Por cada dez vídeos de música alternativa que se coloca, colocar um video de música brasileira dos anos setenta. Eagles ou Beach Boys também são uma boa opção, o importante é passar uma imagem de que, sim senhor, somos excêntricos e originais nos gostos musicais, mas, que diabo, também não perdemos a aderência com a vida real, também somos capazes de valorizar uma boa música de Simon & Garfunkel...

Regra 9 - Arranjar uma boa briga com alguém da blogosfera. De preferência, combinar a briga com alguém que também tenha os números do "statcounter" a definhar, é bom para todos, as visitas sobem em flecha, principalmente se a discussão se iniciar de forma civilizada, trocando argumentos sobre um determinado ponto de vista político e, aí pela terceira ronda da discussão, apimentar a coisa e questionar as opções sexuais allternativas da pessoa com quem estamos a argumentar.

Regra 10 - Terminar os "posts" com uma nota que diz "escrito também no Correio da Manhã" (nunca se sabe se o "blogger" é também o autor de qualquer coisa que tenha saído no "Correio da Manhã" ou se copiou qualquer coisa que saiu no "Correio da Manhã", escrito por outro.). Uma opção alternativa é escrever em meia dúzia de "blogs" e remeter um link para lá. Por exemplo, "Escrito também aqui".

Regra 11 - Pelo menos uma vez por semana, escrever um post cujo assunto seja "a minha vida não é isto, eu tenho uma vida fora da blogosfera".

Regra 12 - Escrever bem. Claro, não é absolutamente essencial...

31.7.09

Cohen, Leonard Cohen

Tenho uma certa tendência para não estar no sítio certo à hora exacta. Bem sei, é uma lacuna enorme, mas acontece-me bastas vezes estar no sítio errado ou, em estando no sítio certo, não estar lá à hora que devia estar. Acontece-me mesmo conseguir o pleno, estar no sítio errado á hora errada, pouca gente consegue isto, mas eu consigo e ainda não percebi se é coisa boa ou se é coisa ruim, mas quer-me parecer que nem uma coisa nem outra.

Quando me acontece estar no sítio certo à hora certa, espanto-me comigo mesmo, dou comigo a pensar que é fantástico que os astros se tenham alinhado de tal forma, que as borboletas tenham batido as asas com tal cadência numa precisa localização, que as conjunturas e os enquadramentos e as idiossincracias e os pequenos nadas e a autorização da minha secretária se tenham enquadrado de forma tão perfeita, que o resultado, uma quase improbabilidade estatística, tenha sido eu estar no sítio certo à hora certa.

30.7.09

Curvas belíssimas

Eu tenho para mim que nunca aqui escrevi sobre bola. E eu, em falando sobre bola, notem, não falo, nunca falarei sobre futebol, o futebol é um desporto e, toda a gente sabe isto, no desporto, ganhar ou perder é igual, o que importa é competir. Na bola não, quando se fala de bola não há cá essas frescuras de ganhar ou perder ser igual, não, quando vou à bola levo um cachecol da minha equipa, está bem que não grito "Floribella" quando o Djaló toca na bola, caramba, também tenho os meus princípios, mas digo caralhadas quando o Pedro Silva falha um passe, não acerta com uma marcação ou é comido por um qualquer jogador do Twente, ou lá como se chamavam os tipos, logo, quero que a minha equipa ganhe, foi para isso que eu lá fui, embora também, quase sempre, vá lá para beber uma ou duas imperiais no fim do jogo, ali nas roulottes, acompanhada de uma bifana, também há entremeada e torresmos, mas, já vos tinha dito, tenho os meus princípios.

E eu nunca tinha escrito sobre bola e parece-me que também não foi desta, isto, não parecendo, não tem nada a ver com bola.

26.7.09

Ramon, de Madrid

O Ramon, que é quase meu amigo, isto do conceito de "meu amigo" é um conceito assim para o blindado, está bem que o Ramon sabe como conseguir lugar nos restaurantes onde nunca se arranja lugar, está bem que o Ramon sabe exactamente como eu gosto que me sirvam a cerveja, está bem que o Ramon sabe o que gosto de tapear pelas sete da tarde, mas, lá está, o Ramon não é mais que meu quase amigo.

O Ramon, dizia eu, trata-me por "Campeón". Não que desconheça o meu nome, note-se, o Ramon sabe que me chamo Visconde. Mas trata-me por "Campeón". É uma bonita história, se calhar conto-a aqui um dia destes. Em me apetecendo.

Com vista para os reactores, não sei se estão a ver

Gosto da cadeira 6A, a cadeira 6A está para os A319 como uma cadeira "ao meio e ao centro" está para uma sala de cinema.

20.7.09

Dos livros na praia

Escolho as leituras de praia, criteriosamente. O que leio na praia passa uma mensagem subliminar sobre o tipo de pessoa que sou, cria empatias ou afasta quem passa por perto do meu território de areia. Este ano, se escolher o último do Miguel Sousa Tavares, sentir-me-ei a fazer parte de um grupo, sei que, mais tarde ou mais cedo, alguém me vai perguntar se aconselho o livro, eu vou tirar os olhos do livro, vou subir os óculos de sol para a testa e, depois de um olhar rápido para a minha interlocutora (os homens nunca me perguntam nada sobre livros) decido se lhe atiro com um "não vale a pena comprar" ou se prescindo de algum do meu precioso tempo para explicar criteriosamente o conceito de "quase romance" segundo o autor, estabelecendo os devidos paralelos com a obra anterior, detendo-me exaustivamente no "Não te deixarei morrer, David Crockett". Por outro lado, se escolher ler Sartre, no original, sei que haverá uma senhora idosa (mais de quarenta e cinco anos, portanto), lá pelo final da tarde, olhar meio alucinado, que me dirá que leu Sartre em finais dos anos setenta. Eu acenarei que sim com a cabeça nos primeiros cinco minutos, direi algo de inteligente sobre os pontos comuns ao pensamento de Sartre e Engels e, em me fartando, levantarei os braços, esbugalharei os olhos e gritarei "MADEIRAAAAAAAAA!" aos ouvidos da velha senhora, voltando imediatamente ao meu estado normal, como se nada tivesse acontecido. A velha senhora acabará por se afastar, ficando uns momentos à conversa com o tipo do bar, ambos a vigiar-me pelo canto do olho e a falar baixinho. Se ler "O velho e o mar", aparecerá certamente uma jovem, tereré numa madeixa de cabelo, que se estenderá sem cerimónia a meu lado e me falará da sensação de liberdade que existe nos desertos (nunca perguntei às jovens com tereré no cabelo a relação entre o Velho e o Mar e desertos).

Recordo com saudade os efeitos colaterais do ano em que elegi a Bíblia Sagrada como minha leitura de praia. Nesse ano de boa memória, todos guardavam uma prudente distância e definiam um perímetro de segurança para o sítio onde eu me instalava. Criancinhas faziam os seus castelos de areia longe do meu horizonte, jovens com as hormonas sobressaltadas observavam uma distância razoável para as suas demonstrações de afecto pela companheira, jogadores de futebol de praia evitavam diplomaticamente estar dentro da área em que eu pudesse estabelecer contacto visual.

Este ano? Ainda não decidi.

19.7.09

Mudar o mundo

Talvez consiga trocar este blog por uma lata de Coca-Cola light...

14.7.09

Do Gin a meio da tarde

Rapazito, não te aproximes, é o meu momento do gin tónico a meio da tarde, não sei se decifraste aquele gesto que acabei de fazer ao empregado, o polegar e o indicador na horizontal, sete centímetros a separá-los, o empregado sabe que aquela é a medida de gin que eu quero, rapazito, não te aproximes agora, a sério, está calor e eu preciso mesmo deste gin tónico, rapazito, a tua mãe acabou de sorrir, caramba, é mesmo bonita, porque será que ela não te chama para junto dela?, olha, continua a sorrir por cima da revista que está a ler, hum, é o Courrier Internacional, sempre gostava de saber se estará a ler a reportagem sobre aqulio das prisões na Bolívia, acho que é na Bolívia, eu não gostei nada de saber que há gente que paga para visitar prisões, soou-me mal, rapazito, não te aproximes, vá lá, é a minha hora do gin tónico, rapazito, adivinhaste que eu gosto de miúdos com ar de reguila, vou mostrar-te o meu truque da língua que atravessa o guardanapo de papel, que belo sorriso o teu, rapazito, olha, a tua mãe também sorriu, chamas-te João?, eu chamo-me Visconde, bem sei, estão sempre a dizer-mo, bem sei que não é um nome muito comum, Visconde de quê? De Vila do Conde rapazito, olha, a tua mãe não tira os olhos de mim, mas, sabes, rapazito? agora somos amigos e não se deve reparar que as mães dos nossos amigos nos estão a sorrir, certo?

Dos livros, e isso

Gosto de alfarrabistas, gosto do cheiro a livros lidos, gosto de os folhear e imaginar quem os terá lido antes de mim, gosto de me perguntar se os parágrafos que mais me impressionaram terão tido o mesmo efeito no antigo dono do livro, gosto de capas comidas pelo sol, gosto de lombadas com pó.

12.7.09

Dia de corridas

Talvez tivesse sido melhor se não nos tivéssemos conhecido num dia de fato às riscas. Tu não sabes, mas os dias de fato às riscas, sapatos engraxados e nó de gravata irrepreensível, esses dias em que utilizo os talheres certos, não são os meus melhores dias.

Talvez nos devêssemos ter conhecido num dia de calças de ganga e t-shirt branca.

10.7.09

Esta semana

... ganhei e perdi, arrisquei tudo e depois não valeu a pena, esqueci-me de coisas importantes, falhei encontros que não podia ter falhado, salvei-me no último segundo, dormi, por alto, umas vinte horas, precisei que tomassem conta de mim.

Mas aguento-me.

6.7.09

O que vejo da minha janela (VIII)

Proença-a-Nova
Foto: Visconde de Vila do Conde

5.7.09

Turn off's (I)

Podes chegar empoleirada nos teus Louboutin's, podes explicar-me porque preferes o L'Ambroise ao L'Arpége quando estás em Paris, podes cheirar a madeiras almiscaradas e a flores raras, podes recomendar-me as costeletas com chutney de pêra e cebola em vez do filet mignon com redução de Porto que era a minha escolha, mas a verdade é que não tiraste os cotovelos de cima da mesa durante todo o jantar.

Joaquin Sorolla, no Museu do Prado

A Vueling tem um voo de Lisboa às dez da manhã com regresso de Madrid às oito da noite por quarenta e quatro Euros, por quatro Euros faz-se o percurso de Metro Aeroporto-Prado-Aeroporto, a entrada no Prado custa dez euros, come-se no Restaurante do Prado por menos de vinte Euros. Ou seja, por menos de oitenta Euros podem ver este quadro (o meu preferido) e os outros cem que lá estão expostos. Oitenta Euros. Menos do que custa passar um dia na Costa da Caparica, com os miúdos, o desgaste do carro, os miúdos a pedir hamburgers e gelados, o trânsito, a gasolina que está tão cara (malandros...), o bronzeador factor sessenta, caríssimo.

(E ainda nos podemos encontrar lá...)

4.7.09

San Fermin

E ao terceiro dia, dou-me conta de que não dediquei nenhum do meu tempo a reflectir sobre a problemática da saída do ex-Ministro da Economia. A única coisa que se me oferece dizer sobre o caso é que percebo perfeitamente que a mulher de Bernardino Soares tenha feito o que fez.

3.7.09

E também sei fazer o melhor Gin Tónico da cidade...

De que me serve saber que Domenicos Theotolopoulos e "El Greco" são a mesma pessoa, de que me serve distinguir exactamente o sabor de um Robusta de um Arabica, de que me serve ser capaz de reconhecer nos primeiros cinco segundos que obra de Bach estou a ouvir, de que me serve saber qual é a relação entre o "Massacre na Coreia" de Picasso, "A execução de Maximiliano" de Manet e o "Três de Maio" de Goya, de que me servem estes saberes se não sei entender o que me dizes?

29.6.09

E hoje é um dia de chuva

O momento mais bonito do "La Tigre e la neve" são os dois segundos que separam o segundo quarenta e seis do segundo quarenta e oito, no minuto três. Os que são capazes de descodificar aquele sorriso do pianista, antes de atacar a parte final do "You can never hold back spring", sabem que foi precisamente naquele momento que o pianista entendeu que estava ali à sua frente uma história de amor. Bem podia o Roberto Benigni estar em roupa interior, bem podia a declaração de amor da Nicoletta Braschi parecer ridícula (eu sei, nenhuma declaração de amor é ridícula...), era tudo manobra de diversão para que ninguém, a não ser o pianista, entendesse que estava ali uma história de amor. E, todos o sabemos, nem sequer é da natureza dos pianistas intuir que estão defronte de histórias de amor. Aquele sorriso entre os três minutos e quarenta e seis e os três minutos e quarenta e oito vale o filme. Porque é o preciso momento em que o pianista percebe qua há ali uma história de amor e já não há muitas pessoas que percebam de histórias de amor.

28.6.09

Tio Lancastre, esse poço de saber...

Um dia, lembro-me perfeitamente que chovia como hoje, perguntei ao meu Tio Lancastre o que deveria fazer para ter a atenção das mulheres.

Enquanto o meu Tio Lancastre se recostava na sua poltrona e fumava o seu Cohiba Lanceros, fitando o fumo que subia quando puxava uma baforada, fui-lhe explicando que já tinha tentado ser cordial, já tinha tentado parecer uma alma sofredora e carente, já tinha tentado ser gentil, até já tinha tentado que elas acreditassem que eu era dono de um superior sentido de humor. Nada tinha resultado.

Então o meu Tio Lancastre olhou para um ponto atrás de mim, bebeu um gole de James Martin's, e, com a sua voz grave, aconselhou-me: "Ignora-as, meu filho...".

26.6.09

(Havemos de falar disto, mas agora tenho que ir ali tratar de um assunto extremamente prioritário)

O Senhor Visconde, essa alma benfazeja...

Não passo de um fiel servidor, bem sei. Mas tenho sentimentos, caramba! E eu gostava de escrever aqui, confesso-o. O Senhor Visconde teve um lampejo de humanidade (tão boa pessoa que ele é, até se me estão a lacrimejar os olhos...) e concedeu-me a subida honra de continuar a poder escrever aqui.

Sou novamente um homem feliz. Bem haja, Senhor Visconde, bem haja...

22.6.09

Dos cheiros

Mandasse eu nos destinos do universo e deliberaria que o primeiro ensinamento a ser transmitido às mulheres seria uma explicação detalhada sobre a mensagem subliminar implícita que existe no acto de um homem mudar de cheiro.

Se o número de homens que considera, sob um ponto de vista académico, a possibilidade de mudar de cheiro por sugestão de uma mulher é quase irrelevante em termos estatísticos, então o número de homens que toma a decisão de efectivamente mudar é quase nulo. Na verdade, há apenas alguns registos vagos e difusos sobre homens que mudam de cheiro, tal é a dimensão do novo paradigma e tal é a alteração dos valores do mundo masculino que tal decisão implica. É sabido que existem milhões de frasquinhos de odores oferecidos por elas nos fundos dos armários dos homens e que nunca serão utilizados. O mundo da cosmética olvida este axioma e continua a produzir cheiros que não serão nunca utilizados pelos homens por não coincidirem com o elaborado genótipo do sistema principal de histocompatibilidade masculino. Todos ficam felizes, principalmente o mundo da cosmética que continua a crescer a dois dígitos por ano, produzindo odores que nunca sairão de frascos de cinquenta mililitros.

Elas sugerem que mudemos de cheiro por variadas razões, quase sempre relacionadas com a recordação de um bom momento passado com alguém que não nós. Nós agradecemos a sugestão, mas resistimos a mudar de cheiro. Temos um cheiro nosso, que já deu provas mais do que suficientes de ser eficiente na prossecução dos nobres objectivos da disseminação das nossas qualidades. O nosso cheiro já nos proporcionou um sem número de empatias odoríficas que acabaram por nos mostrar o encantador mundo da diversidade genética. Nunca há uma razão suficientemente razoável para que um homem mude de cheiro, qualquer macho-alfa conhece esta verdade.

Por isso, quando um homem considera mudar o seu cheiro, há todo um conjunto de informação que está a passar para uma mulher. Algumas captam a beleza do momento. Outras não.

21.6.09

Da amizade

O telemóvel avisa-me, com uma ligeira vibração, que há sete amigos que esperam por mim no Facebook .

Olho em volta. Estão sentados à minha mesa quase todos os meus amigos. Sorrio e proponho um brinde. À amizade.

19.6.09

E não me importei com os comentários dos camareros, entre si, com ar respeitoso: "Es un amigo de Ramon..."

"Cenar en Botin, sin reserva? Claro, no hay nada que sea imposible a Ramon!", disse-me o recepcionista do hotel, um tipo com um ar claramente efeminado.


E assim foi, descobri que, em vez de tentar marcar vezes sem conta uma mesa no Botín, o mais antigo restaurante do mundo, deveria ter pedido ao Ramon que me fizesse a reserva.

16.6.09

Ah, o meu Tio Lancastre...

O meu Tio Lancastre ensinou-me que nunca se deve escrever sobre sexo, que é deselegante escrever sobre sexo. Por isso, este post não é sobre sexo, não se espere que aqui se escreva que a melhor forma de seduzir uma mulher é fazer com que ela se sinta desejada, nunca escreverei isso, compreendam, prometi-o ao meu Tio Lancastre.

Também lhe prometi que jamais revelaria que um amante agradável deverá saber, a cada momento, calibrar os sentidos para apreciar as texturas, os olhares, os sons e os cheiros, que terá que ser suficientemente seguro para se deixar levar e para saber dizer "Ensina-me", olhando-a nos olhos, que tem que saber excitar-lhe a mente antes do corpo, que tem que começar com ternura, acelerar o ritmo e terminar com suavidade, que uma boa noite de sexo começa pela manhã, prolonga-se com um bom jogo de sedução ao longo da tarde que a fará arrepiar o corpo de ansiedade.

Se o meu Tio Lancastre não me tivesse ensinado que é deselegante escrever sobre sexo, eu era capaz de vos contar o que ele me ensinou. Agora, assim...

13.6.09

Nunca voltes ao carro com que já foste feliz


Comme s'il en pleuvait

Bem pode o Brent subir aos setenta e dois dólares, bem pode o Cristiano Ronaldo passar a noite com a Paris Hilton, bem pode o João Rendeiro mandar dizer que, pudesse ele, e eu tinha ao meu dispor cem mil euros, bem pode o Ahmadinejad ganhar as eleições no Irão, bem pode Pyongyang ter um programa de enriquecimento de urânio.

O mundo virado do avesso que me perdoe, mas não havia como me impedir de estar ontem no concerto da Mayra Andrade.

11.6.09

Ou não, ou não...

Ainda ontem, uma jovem rapariga entrou de rompante na cabine de provas onde eu me encontrava a experimentar umas calças tamanho cinquenta e seis. Durante meio segundo, a jovem rapariga percorreu com os olhos cada milímetro do meu corpo, notando-se na sua expressão incredulidade com tudo o que via.

"Desculpe, lamento muito", desculpou-se ela, fechando de novo a porta.

Fiquei a pensar se a rapariga, com aquele "Desculpe, lamento muito", pretendia que eu desculpasse a sua entrada intempestiva ou se apresentava desculpas, em nome da mãe-natureza, lamentando aquilo que acabava de ver.

(Esta música que se ouve em fundo é Bécaud, Gilbert Bécaud)

Nas coisas do dia-a-dia, por exemplo, saber detalhar a correlação entre a evolução do Arabian Light e do índice Henry Hub, ou conseguir distinguir os sistemas de suspensão hidropneumática do DS19 e do SM, eu sinto que sou capaz.

As minhas dificuldades são as temáticas que implicam o domínio de conhecimentos verdadeiramente avançados, cuja complexidade não está ao alcance de pessoas comuns.

Perceber as mulheres, por exemplo.

10.6.09

Já está pronta para ler, a colheita de 2004

A Feira do Livro serve para isso mesmo, compram-se livros por impulso, que isto de comprar livros por impulso, ainda para mais na Feira do Livro não fica mal a niguém. Depois, deixam-se os livros a marinar, num sótão arejado. Três, quatro anos, vão-se mudando os livros que estão no cimo das pilhas de livros, para que todos apanhem as mesmas quantidades de sol nas capas e de pó nas lombadas.

E depois, num feriado, num jeito dispilicente, com aquele ar de quem vai ao sótão só para procurar uns mapas e escolher por impulso onde serão as férias deste ano, pega-se num dos livros da Feira do Livro, colheita de dois mil e quatro.

E, caralhosmafodam, se o "Deus das Pequenas Coisas", tirado ao acaso, do meio da pilha de livros, não é um grande livro...

9.6.09

Plano ainda mais infalível para aquilo da vizinha finlandesa

Passo 1: Passar pelo cabeleireiro e fazer umas madeixas brancas no cabelo. Fazer uma semana de solário com uma aliança na mão esquerda, de forma a que, no final, quando tirar a aliança, fique bem visível a sua marca. Pedir a um especialista que me marque umas rugas no rosto.

Passo 2: Com o ar de ter envelhecido quinze anos, colocar-me deitado à porta da vizinha finlandesa, do lado de fora, absolutamente nu. Fingir-me inconsciente.

Passo 3: A vizinha finlandesa não pode deixar de tropeçar em mim, ou, pelo menos, numa parte de mim, quando resolver sair de casa. Nessa altura, balbuciar umas palavras desconexas e, antes dela gritar por socorro, perguntar em que dia estamos. Ela vai responder que estamos no dia 9 de Junho. Perguntar de que ano. Ela vai responder “de 2009”. Dizer “Graças a Deus, a máquina do tempo funcionou! Louvado seja o Senhor!”.

Passo 4: Dizer à vizinha que acabei de regressar do futuro, mais precisamente do ano de 2024. Como ela sabe, as máquinas do tempo não permitem que os objectos acompanhem os corpos na viagem para o passado, aliás, é por isso que a roupa não viajou comigo. Nem a aliança (deixar que ela veja a marca).

Passo 5: Dizer à vizinha finlandesa que, no futuro, ela estará casada comigo e não com o imbecil com quem ela namora agora. A marca da aliança prova isso mesmo. No futuro, nós seremos muito felizes, mas, primeiro, ela passará muitas dificuldades com o actual namorado, que a tratará tão mal que ela vai ter uma enorme depressão e vai engordar obscenamente. Aliás, é por isso que eu estou a voltar do futuro, para lhe poupar sofrimento. Além disso, o actual namorado dela vai sofrer uma rara doença que afectará irreversivelmente o seu desempenho sexual, o namorado não aceitará e vai fazer um tratamento que lhe vai fazer cair o cabelo, ela vai deprimir ainda mais e vai passar as noites a comer gomas e vai engordar ainda mais.

Passo 6
: Se ela achar que a minha explicação é desprovida de sentido, introduzir uma explicação que implique os vectores espaço-tempo e a sua relação com as teorias evolucionistas. Ela vai preferir aceitar a explicação simples a argumentar comigo.

Passo 7: Dizer que ela pode escolher o seu próprio caminho e beijá-la com confiança (afinal, já nos beijámos milhões de vezes no futuro…). Dizer que a máquina do tempo pode vir buscar-me a qualquer momento ao passado, a menos que ela desligue todos os relógios da casa, para prolongar a minha estadia no tempo presente (ou passado, no meu ponto de vista). Desaparecer enquanto ela desliga os relógios do leitor de DVD, da cozinha do ar condicionado, dos telemóveis.

Passo 8: Desaparecer por uma semana, até passar o efeito do bronzeado e não se ver a marca da aliança. Tirar as madeixas brancas e retirar as rugas postiças.

Passo 9
: Depois de regressar de uma semana em Londres, em negócios, estranhar ver a vizinha finlandesa à porta de minha casa.

Passo 10: Ela vai beijar-me fervorosamente, agradecendo-me ser o responsável por ela nunca vir a engordar no futuro.

Passo 11: Sorrir.

(Escrito a partir de uma ideia-base que li num blog inglês, a que não consigo aceder de novo para creditar a ideia original)

8.6.09

Técnica infalível para me apresentar à vizinha finlandesa

Dia Zero:

1) Arranjar uma foto da melhor amiga dela. Arranjar uma foto minha, em que eu esteja vestido só com uns boxers Calvin Klein. Trabalhar as duas fotos no Photoshop e obter uma terceira foto, em que esteja eu com os meus boxers, sorridente, a fumar um cigarro e a melhor amiga da minha vizinha finlandesa, com ar saciado.
2) Meter a foto dentro de um envelope. Escrever no envelope, em letras grandes, “Visconde de Vila do Conde” como destinatário. Escrever os dizeres “Confidencial” e “A abrir só pelo destinatário”.
3) Selar o envelope com lacre. Meter o envelope na caixa do correio da minha vizinha finlandesa. Aguardar.

Dia Um:

1) Falar com o porteiro do XL para me reservar a melhor mesa do restaurante para o jantar do dia seguinte.
2) Prometer ao chefe de sala do XL uma generosa gratificação para que ele me diga aleatoriamente as palavras “Senhor Visconde, nunca o vi com tão bela companhia” quando me levar à mesa
3) Fazer de conta que não reparo no reflexo que o sol faz nos binóculos que a minha vizinha finlandesa está a usar enquanto eu apanho sol no meu relvado
4) Combinar com um grupo de romenos uma simulação de assalto à minha vizinha finlandesa, a cinquenta metros do XL, para o dia seguinte

Dia Dois:

1) Cumprimentar o porteiro do condomínio fechado onde vivo e dizer-lhe que vou jantar ao XL.
2) Dirigir-me ao XL, fazendo de conta que não noto que o CLK da minha vizinha finlandesa me segue a uma distância confortável
3) Estacionar o carro a setenta e cinco metros do XL, depois de ignorar um óptimo lugar a cinquenta metros do XL
4) Correr para o grupo de quinze romenos que pretendem assaltar a minha vizinha finlandesa
5) Gritar, com voz possante, “Fora daqui, facínoras, ou então vão ter que se bater comigo”.
6) Acalmar a minha vizinha finlandesa, enquanto os quinze romenos se afastam a correr, assustados
7) Perguntar à minha vizinha finlandesa se não quer um copo de água com açúcar no XL
8) Sentar-me à mesa e ver a minha vizinha finlandesa recuperar as cores, depois do chefe de sala ter dito as palavras “Senhor Visconde, nunca o vi com tão bela companhia”
9) Pagar o jantar e despedir-me dela com um “Havemos de nos ver por aí”. Fazer de conta que não reparo no ar de decepção da minha vizinha finlandesa.

Dia três:

1) Tomar banho na piscina. De acordo com as escrituras, a vizinha finlandesa tocará à campainha em menos de cinco minutos
2) Abrir a porta envolvido num roupão felpudo
3) Escutar atentamente a vizinha finlandesa que me diz “Vinha entregar-lhe isto, acabo de ir à minha caixa do correio e parece-me que é importante”.
4) Fazer de conta que não tinha visto o envelope no banco do CLK da minha vizinha no dia anterior. Fazer de conta que não reparo que o lacre está quebrado
5) Puxá-la para mim enquanto deixo cair o roupão e digo “Nada é mais urgente do que nós dois”
6) Isso.

6.6.09

Se calhar foi porque ontem vesti o meu fato Boss

Hoje sonhei com aquela miúda que aparecia no vídeo do Springsteen, o Dancing in the dark, o Boss estava ali a fazer de conta que dava uns passos de dança,e, do meio da multidão escolhia-a a ela, não sei se estão a visualizar a situação, era um concerto do Boss, o Boss apontava para ela, dizia "Hey baby!", puxava-a para cima do palco e dançavam os dois, não sei se estão a ver o que era o Boss há vinte e cinco anos, calça de ganga justa e camisa branca aberta.

Lembro-me que a miúda não sabia muito bem o que havia de fazer, por um lado estava feliz por estar ali em palco, escolhida pelo Boss, por outro lado percebia-se que não sabia muito bem o que havia de fazer, se dançar agarrada ao Boss, se dançar afastada, a miúda acabava por imitar os passos do Boss e aquilo não ficava bem, o Boss não era especialmente conhecido pela forma como dançava.

Isto é capaz de ser uma parábola, a parábola do Boss e da miúda que ele puxou para o palco. E é capaz de ter alguma mensagem, mas eu sempre fui mau a decifrar mensagens.

Não são precisos dois para ouvir tango

4.6.09

Tudo boas marcas...

Parece que o Benfica é uma das Superbrand 2009. O Halibut também.

2.6.09

Andante, andante.

É verdade, parecendo que não, ainda cá estou. Parece que não estou, bem sei, o problema são estes dias que eu gostaria que fossem andante, andante, mas não são, de um momento para o outro parece que está a acontecer alguma coisa aos mercados, pois se até a General Motors tem problemas, porque razão é que eu havia de ter dias andante, andante?

E, estando a acontecer alguma coisa aos mercados, estes dias que se queriam andante, andante, transfiguram-se, tenho pesadelos com o Senhor Bloomberg , que me segreda ao ouvido que os forecast de ontem já não servem, logo a mim que nem sei o que são forecast, mas se o Senhor Bloomberg me diz para usar outros é porque é capaz de ser coisa séria e é melhor reagir depressa, pode até acontecer que os meus dias andante, andante não voltem nunca.

E bem me podem dizer que para a semana é que é, que os astros se alinham para que, em vez de um dia andante, andante, tenha toda uma semana andante, andante, as coisas não são assim tão simples, o meu fuso horário é o de Madrid.

30.5.09

Da série "Músicas que não me saem da cabeça" I

Quando falo em público, por razões que agora não interessam mas que estão essencialmente relacionadas com a possibilidade que as pessoas, enebriadas pelas minhas palavras, desatarem a comprar ou a vender acções, quando falo em público, dizia eu, a última imagem que apresento diz que aquilo que acabaram de ouvir não poderá induzir a qualquer atitude, é apenas a minha opinião sobre os factos.

Estou aqui a pensar se não seria boa ideia arranjar um disclaimer parecido para usar no dia-a-dia.

23.5.09

A vergonha...

...que os italianos têm por causa do Berlusconi ser o presidente deles tem algumas semelhanças com a que eu sentia quando o Sousa Cintra era o nosso presidente.

22.5.09

Como é que eu sei isto? Ora...

Parece que um inglês ganhou aquilo que chamam "O Melhor Emprego do Mundo". Seis meses numa ilha deserta (hum...). Oitenta e três mil euros por seis meses (pfff...). Limpar a piscina (uau...). Alimentar os peixes (hum, hum...).

Aquele rapaz não tem o melhor emprego do mundo. Definitivamente.

21.5.09

Será só a mim acontecer-me olhar para a cara deste gajo e parecer-me o Cristiano Ronaldo, mas em mais velho?


Eu era...

...para dar aqui a minha opinião sobre a professora Josefina, mais os seus conhecimentos de sexualidade adquiridos ao longo de quase vinte anos de penosos estudos, mas depois lembrei-me daquilo do Otelo, de "estar a ponderar" recusar quase cinquenta mil euros da promoção, sempre me pareceu estranho quando as pessoas "estão a ponderar" recusar coisas, mas não recusam, só aparecem no vinte e cinco de Abril a dizer que "ponderam recusar", mas depois pensam melhor, sempre são cinquenta mil, caramba, cinquenta mil euros dão para comprar duzentas garrafas de Château Lafite Rothschild de 2004, não que o Otelo usasse o dinheiro para comprar duzentas garrafas de Château Lafite Rothschild de 2004, parece-me um homem sensato, afinal apenas ponderou recusar os cinquenta mil euros, não disse logo que recusava e pronto, no vinte e cinco de Abril admite-se tudo, até o filme da Maria de Medeiros a passar na televisão todos os anos, passa o filme da Maria de Medeiros e percebe-se logo que estamos no vinte e cinco de Abril, com o Música no coração é a mesma coisa, só que o Música no Coração marca a época do Natal, no vinte e cinco de Abril é o filme da Maria de Medeiros mais o Vasco Lourenço a dizer que se for preciso os militares voltam a pegar em armas, eu nunca gostei muito do Vasco Lourenço, sempre me fez lembrar o Otelo, mas em mais gordo e, digamos assim, menos instruído, não tem os estudos que tem, por exemplo, a Professora Josefina.

Agora a sério, o tipo não recusou os cinquenta mil euros, pois não?...

: )

20.5.09

José Caleia Rodrigues, analista de petróleo, diz, em entrevista, que "o petróleo vai andar a oscilar entre os 50 e os 80 dólares".

Visconde de Vila do Conde, analista de situações em geral, diz que:

i) O Sporting terminará a próxima época entre o primeiro e o décimo lugar da tabela
ii) A temperatura do mar na Fonte da Telha, neste preciso momento, deverá oscilar entre os oito e os vinte e sete graus Celsius
iii) O peso da irmã do Cristiano Ronaldo deverá oscilar entre os cento e trinta e os trezentos quilogramas.

O restaurante do Sheraton já não é o que era

Não sei se conseguirei que visualizem a situação, mas aquilo está um daqueles sítios em que olhamos para os rapazes e têm todos ar de ser donos de um Honda Civic CRX. E olhamos para as mesas e parece-nos que há vinho João Pires em todas elas. E olhamos para as raparigas e todas nos parecem parecidas com a irmã do Cristiano Ronaldo. E a música ambiente soa-nos ao Still loving you, mas cantado pelo Demis Roussos. E os empregados são todos parecidos com os empregados do Love Boat, mas vestidos como o Abel Xavier. E a qualquer momento nos parece que as mulheres se dirigem para a pista de dança e começam a dançar umas com as outras. E dá-nos vontade de sair dali. E saímos mesmo.

17.5.09

E o Liedson lá marcou mais dois

Talvez tenhamos passado muito tempo fora das cavernas, a caçar javalis, ou lá o que fosse que se caçava naqueles tempos. E, enquanto caçávamos javalis, acreditámos que elas ficavam sossegadinhas na caverna, à espera que regressássemos com o javali às costas, elas, em nos avistando ao longe bateriam palmas de satisfação e avivariam a brasa, nós, cansados e orgulhosos (já viste que beleza de javali?), descansávamos da jornada, aproveitando para nos informar, por alto, dos avanços da prole (parece que o mais velho já se ajeita com o arco e a flecha), enquanto soltávamos uns ditongos aprovadores.

O problema é qua nunca se nos ocorreu que elas eram capazes de não ficar sossegadinhas enquanto nós tratávamos de caçar javalis. Nas longas jornadas de caça, elas saíam da caverna, teciam elaboradas redes de contactos com as mulheres das cavernas vizinhas, estabeleciam avançadas metodologias de comunicação. Evoluíam, enfim. E nós lá fora, um único objectivo, caçar suculentos e deliciosos javalis que nos forneceriam os glícidos para os próximos dias, nós apenas com um fito, chegar à entrada da caverna, levantar o javali bem alto, olhar em volta, constatar que o nosso javali é o mais gordo, olhar pelo canto do olho e ver a cara do tipo da caverna de cima, cabeça baixa, javali pequeno, a mulher dele com um olhar desaprovador (o vizinho da caverna de baixo é que se esforça, vê-me só o tamanho daquele javalizão), a nossa mulher a olhar-nos embevecida (que forte, só tu conseguirias caçar um javali tão grande), nós a contar alto a terrivel luta que tínhamos tido com o javali.

E nós a pensar que elas tinham ficado sossegadinhas na caverna.

E elas a pensar que eram precisos cinco dias para caçar um javali.