31.1.09

(Para memória futura)

As consultoras da Accenture são muito mais giras que as da Deloitte.

25.1.09

Esta história do tio do Sócrates fez-me lembra que há muito tempo que não falo aqui do meu Tio Lancastre

E, de repente, sem se fazer anunciar, deu-me uma vontade imensa de invocar aqui o meu Tio Lancastre, esse bastião do conhecimento, esse sábio clarividente com quem tanto aprendi.

Recordo com particular estima a primeira conversa sobre mulheres que tive com o meu Tio Lancastre, tinha eu pouco mais de quatro anos. Perguntava-lhe eu qual seria a característica numa mulher que eu devia valorizar acima de todas as outras, que sinais devia saber captar para perceber que estava a falar com a mulher certa.

E então o Tio Lancastre recostou-se no seu cadeirão de couro inglês, puxou uma baforada do seu Montecristo nº 1, recomendou-me que me sentasse nos seus joelhos e, inclinando a cabeça para trás, explicou-me com a sua voz grave tudo aquilo que achava que uma mulher devia ter.

"Inteligência, meu filho".

Fiquei à espera que o meu Tio Lancastre desenvolvesse, que me falasse da elegância, do sentido de humor, mas ele disse que eu ía perceber mais tarde, que o melhor seria eu treinar a capacidade de intuir sempre que uma mulher inteligente se cruzasse nos meus caminhos, que me preparasse para não a deixar escapar, que talvez esse momento sublime não acontecesse mais do que uma vez.

O meu Tio Lancastre tinha razão.

23.1.09

Um dia na vida do Visconde de Vila do Conde

O fiel Ezequiel abre os reposteiros do quarto e serve o chá. Podemos dizer que é o chá das cinco...


Café no Harrods às sete da manhã. É um clássico. A Sasha já sabe a temperatura quero o café e tem sempre uma palavra de apreço pela cor da minha gravata. Acho que ela simpatiza comigo.


Desde que aconteceu aquilo no Hudson, leio sempre as instruções e verifico se o colete salva-vidas está mesmo lá. Nunca se sabe e, com a idade, vou ficando mais prudente.


Começamos a descida para Madrid. Parece que lá em baixo chove e está frio. Cá em cima, nasce o sol.



O meu fiel servidor faz questão de me ir buscar ao aeroporto. "O Senhor Visconde não tem tempo a perder". Acena-me quando chego e segura-me o guarda-chuva para eu não me molhar. Registo que não me segura no portátil, para que eu meta as mãos nos bolsos. Registo a falha, fica para memória futura.

Depois da primeira reunião, peço que me deixem sozinho por uns minutos antes do almoço, tenho assuntos urgentes para tratar. Saem respeitosamente, depois de me trazerem mais café. Entro nos meus blogs e consulto a página do Record.

O El Nemo, ali ao início da Castellana, do lado do Santiago Bernabeu, é sempre uma boa opção. Música boa no volume certo e um peixe de qualidade. Dispensava os aquários, mas parece que faz parte da ambiência...

A meio da tarde, chega-me a notícia de uma maçada. Uma situação extremamente delicada requer a minha ida ao Porto. Em vez de voar directamente para Lisboa, passo ainda pelo Porto para mais uma reunião. É desagradável, tinha planos para a estreia do filme sobre o Nixon.


Madrugada. Chove em Lisboa. Talvez ainda vá beber um copo. A vida é boa.

22.1.09

Devia ter desconfido dos óculos escuros e da bengala do comandante...

Quando o comandante, no meio da informação sobre os pés de altitude e a temperatura no destino, disse que falava em seu nome e da "lindíssima tripulação", pensei que estava a ser irónico.

Quando o comandante voltou a referir "la guapíssima tripulación" e a "beautiful crew", percebi que estava a falar a sério.

E, por uma vez, tive medo de voar...

21.1.09

Estes gajos dos recursos humanos são uns meninos...

Ao fim de quinze dias, chegamos a um impasse. Eu aceito trocar de carro, entrego o Citroen e dão-me o carro que quiserem, nem quero escolher. Em contrapartida, devolvem-me a minha secretária antiga, a do decote generoso, e levam esta, a dos óculos na ponta do nariz, a que estou sempre à espera que me trate por "menino".

Quase no fim do dia, informam-me que temos negócio. Parece que já cancelaram a encomenda do carro novo...

Sim, ando a ler o blog do Saramago

Mais do que o óbvio bom aspecto do homem (já a mulher…), mais do que a elegância no vestir (já a mulher…), mais do que a dentição perfeita (já a mulher…), o que me fascina é o mundo ocidental ainda ter a capacidade de gerar políticos que falam uma linguagem que se percebe, que reduzem os problemas à sua fórmula básica, que criam empatia.

O que me fascina a mim, agora que tenho esta idade em que o exame à próstata está a menos de quinze anos de distância, é que a sociedade do consumo, da ganância, do ter mais do que aquilo que se precisa, seja capaz de gerar um homem assim, capaz de nos dizer que é nossa responsabilidade deixar melhor do que encontrámos, capaz de nos motivar a apanhar o lixo do chão e a colocá-lo no contentor, mesmo que não esteja ninguém a ver.

20.1.09

Senta-te aqui, rapaz...

O problema, meu rapaz, é que é tudo uma questão de léxico. Vê o Obama, por exemplo. Se trabalhasse nas obras do ground zero era preto, se jogasse basket pelos Lakers era negro, como é o Obama é afro-americano.

Por isso, meu rapaz, não estranhes as requisições do Visconde a pedir que não lhe tirem o Citroen, a justificar que não precisa de nenhum BMW. Se fosses tu, Horácio Inácio, riam-se de ti e chamavam-te maluco. Mas a ele, ao Visconde, vê tu como o olham com deferência, com secreta admiração, como quase desejam também eles ser os felizes donos de um Citroen que se distinga na garagem junto dos Audi. O Visconde não é maluco, meu rapaz. É excêntrico...

Mãos livres

Toca o telefone, tenho que colocar um post-it no vidro da frente, qualquer coisa que me lembre de ouvir música mais baixo, já sei que não resulta, basta que me apareça o concerto nº 1 para piano e orquestra de Grieg e já sei que o volume subirá, primeiro um toque suave no comando do volante, depois, já em descontrolo, rodarei o botão do volume de som e o resultado será que o meu telemóvel topo de gama bem pode tocar que eu não ouço, aliás, quem, no seu perfeito juízo, trocaria Grieg pelo Nokia Tone?

Toca então o telefone, três vezes, três chamadas não atendidas, à quarta tentativa parece-me ouvir vagamente o som do telemóvel, mas estou a conduzir, que maçada, talvez o telemóvel esteja por baixo do banco, não, encontro o Philip Roth, encontro a Montblanc que já dava como perdida, mas nada de telemóvel, que continua a tocar, deve ser mesmo alguma coisa urgente, encosto à berma, parece-me que o som sai do porta-luvas, mas no porta luvas estão os documentos para assinar esta tarde, se os perdesse o mundo era capaz de girar ao contrário, talvez o telemóvel esteja em cima do banco do pendura, parece que sim, não, falso alarme, é o i-Pod, parecia-me mesmo o telemóvel, ah, agora sim, no bolso da camisa, como é que havia de o descobrir?, nunca guardo o telemóvel no bolso da camisa.

Tem que ser importante, não é todos os dias que um número desconhecido não desiste ao fim de oito chamadas não atendidas, estou quase a atender, mas primeiro tenho que baixar o volume do rádio, talvez um post-it no vidro da frente me lembre de baixar o volume, não, não ia resultar, bastava que passassem Grieg que se complicava logo a coisa.

17.1.09

Contaram-me, eu não vi...

São três longos e penosos minutos, mais dezanove segundos, o tempo que demora um homem que já foi Bond, James Bond a destruir uma carreira.

Três minutos e dezanove segundos é o tempo que lhe demora a inenarrável interpretação de SOS, dos Abba, no Mamma Mia, o filme.

Que diria o produtor do "Caso Thomas Crown" se adivinhasse que, anos mais tarde, Pierce Brosnan se havia de prestar a isto? Que acontecerá agora a Pierce Brosnan?

Será que terminará a carreira a fazer anúncios para máquinas de café?

16.1.09

Décimo sexto dia

Ao dia de hoje, só se mantem intocável uma das minhas decisões de ano novo.

A de ter decidido que ia ser imortal.

Casino

E agora? Vou ou não vou? Por um lado, gostava de ir, mas…

(Faites vos jeux…)

Talvez apareça. Afinal, perco o quê? E a história só se repete se me apetecer…

(Sete. Vermelho)

Ok! Combinado! (Send message)

(Les jeux sont faits!)

Hummm…

(Sete, Vermelho!)

15.1.09

APELO

O que se segue não é um apelo anónimo, é do meu amigo que pede. Se alguém achar que pode ajudar, alguém que nos leia a partir da Alemanha, é mandar mensagem para mail eufigenio@hotmail.com

http://apenasmaisum.wordpress.com/2009/01/14/apelo/#more-948

[notícia no Jornal de Notícias]

[Blog Find Afonso Tiago]

10.1.09

Este também tem a imagem de marca, o bigodinho ridículo...

Sou Cliente ZON. E serei, o outro tem o Canal Benfica, e ter uma televisão em que passa o Canal Benfica colide com os fundamentos mais sagrados das sacras regras em que fui educado.

E a ZON, que boa gente que é a ZON, ofereceu-me um cartão para eu ir aos cinemas deles. Dizem por aí que ofereceu uns milhões desses cartões, mas eu só quero falar do meu, o dourado (o vosso é roxo, não é? Pois...).

Acontece que eu, que vou pouco aos cinemas da Lusomundo e, quando vou, pago com pontos do cartão da Galp (um euro mais quinhentos pontos, toda a gente sabe isto). Mas, ainda assim, fiquei contente. Chama-se cross-selling, o Expresso oferece DVD's, o Público oferece livros, o Totta oferece vouchers do Vila Galé, a Galp oferece excelência. Acho que percebem a coisa, certo?

Acontece que aquele rapaz, o Paulo Branco, é suficientemente pouco inteligente para querer ter opinião sobre o uso que eu faço, ou não, do meu cartão ZON. O Paulo Branco devia respeitar-me mais, afinal eu sou aquele tipo extremamente bem apessoado que normalmente está nas salas onde passam filmes do Paulo Branco. Sim, aquele que está lá sozinho e que não contribui para o negócio das pipocas, mas que paga o bilhete integralmente, pelo menos até voltar aos cinemas do Paulo Branco e reparar que aquilo já fechou, que o que paguei pelo bilhete mais o que sai do meu bolso para pagar a falta de visão do Paulo Branco não é suficiente para manter aquilo de pé. Resumindo, o Paulo Branco, em vez de colocar faixas nos seus cinemas com os dizeres "Powered by Visconde de Vila do Conde", é mal agradecido e quer ter uma palavra a dizer sobre os cartões que tenho no bolso.

E o Paulo Branco, assim, arrisca-se a que eu me zangue e não vá mais às salas dele. Perdemos todos, eu deixo de ver cinema europeu e o Paulo Branco vai ter que viver só de subsídios e a aparecer menos de mão dada com a Catherine Deneuve. E, parecendo que não, é aborrecido.

8.1.09

"In" está o que um homem quiser

Se for lá mesmo ao fundo as minhas memórias, eram os UHF e todo o rock Português que estava “in”. Não era tudo, claro. Heróis do Mar, Táxi, GNR , podia ser, estava “in”. Roquivários, Adelaide Ferreira e Salada de Fruta, apesar de ser rock português, eram do mais “out” que se possa imaginar.

Depois foram os Smiths, mais os New Order e o Lloyd Cole que eram “in”. Duran Duran, Wham e Alphaville não estavam “in”, nem pensar nisso.

Ultimamente, “in” eram os Gotan Project, os Blur. “Out” estavam as “boys band” (a não ser que fossem os Take That, ressuscitados). Ía escrever que o Mika estava tão “out” como o Michael Carreira, mas depois achei que era melhor não…

U2, James, Pink Floyd e toda a música exacta sempre estiveram “in”. Música brasileira sempre esteve “out”.

Passa o “Viva la vida” na Antena 3. Ponho o volume no máximo. Que se foda…

Vantagens competitivas

Nunca foram tão evidentes as vantagens de não precisar de dormir mais de quatro horas por noite.

6.1.09

Saudades de Valência, sim.

Antes de mais, que se faça uma fogueira com lenha de laranjeira ou de pinheiro, ao ar livre, que o maior segredo da paella é ser cozinhada por homens e ao ar livre.

Na paella já deverá estar uma lâmina de bom azeite, junta-se o frango em pedaços pequenos mais os pedaços de coelho, a proporção deve ser de quatro pedaços de carne de frango para um de coelho.

Quatro minutos depois , junta-se o feijão verde, mais o colorau e o tomate ralado, sim, ralado com um ralador, há-de sair muito sumo, mas é mesmo assim. Deixa-se ali por mais quatro minutos e junta-se a feijoca que repousou uma noite em água e foi a cozer, mais a água da cozedura. Enche-se a paella de água até à borda.

Quando a água tiver evaporado até que se vejam os parafusos que apertam as pegas da paella, é altura de deitar o arroz, um bom arroz valenciano, mais rijo que o arroz normal.

Jamais tocar o arroz depois de o colocar na paella, o que tem que se ir "chegando" é o fogo, colocar um tronco aqui, ajeitar outro tronco ali.

Esperar uns quarenta minutos e, no final, cobrir a boca da paella com papel de jornal salpicado com água. Deixar repousar cinco minutos.

(não, não há pimento, nem marisco, nem carne de vaca, nem mais nada. Esta é a verdadeira paella valenciana)

5.1.09

Raramente me engano a distinguir homens bons

O tipo que comandava a dança da capoeira era um homenzarrão, para cima de dois metros, aposto que mais de cento e vinte quilos de peso.

No fim da exibição recebeu os aplausos e agradeceu, humilde, "o acolhimento que me deram no vosso país". E eu, que percebi logo que estava ali um homem sério, fui no final aos camarins. O homenzarrão abriu a porta e eu disse-lhe que vinha só para lhe dizer pessoalmente que era bem vindo ao meu país, aliás, que para os homens de bem não há "o meu país".

E, posso quase jurar, humedeceram-se os olhos do homenzarrão de dois metros e cento e vinte quilos enquanto me dava um abraço sólido.

1.1.09

Em 2009 vou continuar...

...a ouvir música alto, a comprar mais livros do aqueles que consigo ler, a chegar a horas a todo o lado, a rir alto, a regular o ar condicionado nos doze graus só para ficar com a sensação que a secretária fica feliz por me ver, a beber vinho tinto, a ler tudo o que me dão para assinar, a decidir de acordo com a minha intuição, a gostar de pessoas, a confiar nas pessoas, a achar que este ano vamos ser campeões, a achar que o preço certo do brent é entre os quarenta e os cinquenta dólares, a ir a Madrid todas as semanas, a ir ao Porto só porque sim, a ir a Londres, a ouvir Wagner enquanto esquio nas pretas, a gostar de fatos às riscas, a usar camisas brancas e gravatas lisas, a beber imperiais no fim do dia de trabalho, a desapertar o nó da gravata quando venho para casa, a reservar dois dias da semana para almoçar com amigos, a levantar-me cedo, a deitar-me tarde, a ir ao cinema sozinho, a achar que sou um tipo com sorte, a ter a certeza de que sou feliz.

(Ou seja, em 2009 não muda nada...)