28.2.09

Já me sinto capaz de escrever sobre o assunto


(Foto: Visconde de Vila do Conde)

Com o tempo, com o afastamento daquela idade em que eu podia ter sido um notável central da selecção nacional (sim, eu sei, até o Bruno Alves joga na selecção...), sinto que vou desenvolvendo defesas e que ganho aquele tipo de sabedoria que me faz evitar estar nos locais certos à hora errada.
Este sexto sentido fez-me ter o discernimento de, podendo escolher, ter preferido um Real Madrid a jogar em Santiago Bernabeu a um Sporting a jogar em Alvalade. Em boa hora...

26.2.09

221b Baker Street

(Foto: Visconde de Vila do Conde)

Passei três quartos da minha vida a imaginar o interior do 221b da Baker Street. Na minha imaginação estava exactamente definido o local onde Sherlock Holmes tocava o seu violino, sabia onde guardava os seus cachimbos, conhecia cada detalhe do quarto de dormir do Dr. Watson, não tinha dúvidas sobre onde Sherlock Holmes trabalhava os seus preparados químicos.

Afinal estava tudo errado.

Psst...

(Foto: Visconde de Vila do Conde)

Senta-te e deixa-te levar pelo aroma do café que foi produzido em locais que nem sonhavas que podia haver café, fecha os olhos e não ouças senão a música do Mali e da Nicarágua, tocada por mãos rudes e sábias.

Agora folheia os livros que te falam de lugares onde nunca foste, retira-os com calma da estante, lê devagar, senta-te um pouco, aprecia a luz certa das fotos, delicia-te com a força dos rostos, sorri enquanto pensas que aqueles homens não sabem escrever contratos e não precisam, afinal sabem o valor de um aperto de mão, são de um mundo em que a quebrar a palavra é uma desonra.

Passeia tranquilo entre os livros e as fotos, detem-te nos pormenores, não hesites em tocar os velhos documentos que te falam de mundos perdidos. Perde-te nos cheiros, sente a diferença entre as especiarias, entende que a alfazema não tem o mesmo cheiro da lavanda.

Abre os olhos, estás na loja da National Geographic. Lá fora é Piccadilly Circus. Assustador, não é?...

19.2.09

Vou ali e já volto


(Foto: Visconde de Vila do Conde)

18.2.09

Não sei quê Barcelona, ou lá o que é...


Fui ver o último filme daquele realizador do trompete ou do saxofone, ou lá o que é, a história, não tomei muita atenção à história, a fotografia parece que também não é má, sei lá da fotografia, e parece que se passa em Espanha, acho eu.


E A PENÉLOPE CRUZ ENROLA-SE TODA COM A SCARLETT, PÁ!


Tens um minuto para responder

Se eu um dia te convidasse para ir jantar a um restaurante, havia de escolher o Tejas Verdes, ali na antiga estrada que vai para Burgos. A carta de vinhos é generosa e de qualidade e percebe-se que o chefe de cozinha é raposa velha nessa arte nobre que é a escolha dos ingredientes.

Os camareros não têm menos de sessenta anos e menos de cento e vinte quilos de peso, o que causa um certo efeito visual nas suas calças pretas e camisas brancas, impecavelmente limpas. Têm um saber estar que os torna únicos a contar histórias e recordar passados, conseguem ter o mais requintado sentido de humor, mantendo-se imperturbavelmente sérios.

Ao jantar acendem as lareiras, profissionais, sem gastar mais que um fósforo. Ficávamos ali noite dentro a beber Rioja Crianza e queijo de Cabrales. Vamos?

16.2.09

Três seguidos. Há quanto tempo...

Ao princípio eu acreditava que éramos todos viajantes. Carimbavam-se passaportes nas fronteiras, em Paris havia livros de autores que não havia em Lisboa, comprar nas lojas "duty-free" era um bom negócio. Cada viagem era única, as cidades tinham ambientes particulares, Madrid cheirava a tabaco negro, mostravam-se aos amigos fotos impressas em papel, traziam-se vinhos do Rhone que se haviam de abrir em alturas especiais.

Depois percebi que também havia turistas, que alguns viam só o que lhes mostravam, que se faziam filmes em vez de olhar com olhos de ver, comiam e bebiam exactamente o mesmo que nas terras de onde vinham.

Agora não sei que categoria é esta, a dos que estão em três capitais na mesma semana e não passam dos hotéis mais próximos do aeroporto, a dos que jantam no hotel porque estão demasiado cansados para sair à descoberta, quem são estes que, quando descobrem que estão livres mais cedo do que o previsto preferem antecipar o voo em vez de conhecer a cidade ou beber tranquilamente um café.

Ou talvez não...

Talvez a minha mãe não me devesse ter abraçado tanto, talvez eu não devesse ter a certeza absoluta de que o meu pai me agarraria no útimo momento quando me mandava ao ar, talvez eu devesse ter-me queixado mais quando caía, talvez eu me devesse angustiar de vez em quando, talvez eu não devesse estar tão certo de que tudo corre sempre bem, talvez eu não devesse ter tido sempre amigos mais velhos que competiam para ver quem mais protegia "o miúdo", talvez eu não devesse ter tanta sorte, talvez eu devesse ter um plano B de vez em quando.

Talvez eu devesse perder esta filha da puta desta confiança ilimitada no que sou capaz de fazer.

Tiskaptinspik

Há poucas coisas tão divertidas como um comandante da Iberia a falar inglês com os passageiros...

14.2.09

Ah, o meu Tio Lancastre...

Um dia perguntei ao meu Tio Lancastre porque é que algumas mulheres, sendo tão poderosas, não saíam do mesmo registo, não evoluíam para um nível de sabedoria superior, mostravam-se capazes de tantas decisões difíceis e tão incapazes para resolver questões menores.


O meu Tio Lancastre meteu-me no seu velho Bentley Continental e levou-me a um circo. O elefante estava cá fora, tinha uma pata amarrada por uma corda e a corda estava presa a uma pequena estaca. O meu Tio Lancastre perguntou-me se eu já alguma vez tinha questionado por que razão o elefante, forte e poderoso, não escapava, afinal não lhe devia ser difícil arrancar a estaca.


E explicou-me que aquela estaca era a mesma desde o tempo em que o elefante era ainda jovem. Nessa altura o elefante tentara libertar-se mas não tivera força suficiente para arrancar a estaca. Com o tempo, o elefante tinha interiorizado que não era possível arrancar a estaca e hoje seria capaz de arrancar árvores, mas nem sequer tentava arrancar a pequena estaca.


Eu percebi à primeira o que o meu Tio Lancastre me estava a dizer.

A tribo do avião das sete e um quarto

Seis e quarenta e cinco da manhã, cumprimento a tribo do avião das sete e um quarto, um leve aceno de cabeça quase imperceptível, o suficiente para não parecer pedante, não tão pronunciado que possa ser considerado intrusivo.

Às sete e trinta, o sinal de "desapertar cintos" funciona como sinal de "ligar portáteis" e a tribo, como que impulsionada por uma mola invisível, matraqueia furiosamente as teclas, aparecem fantásticas folhas de cálculo com projecção de vendas até 2018.

Às sete e cinquenta (aliás às oito e cinquenta, afinal já voamos sobre Cáceres) a tribo rejeita o "pequeno snack" com um gesto rápido, sem tirar os olhos do portátil.

Às oito e vinte, assim que o avião se imobiliza, a mesma mola invisível que fez a tribo ligar os portáteis, tem agora o efeito de os fazer levantar do lugar e ficar em pé no corredor, nunca percebi se a tribo tem a informação que eu tenho, talvez seja informação confidencial, talvez seja uma sofisticada análise das evidências, mas a verdade é que eu sei que não vale a pena levantar-me sem que as portas do avião se abram primeiro.

Lá vamos às nossas vidas, eles vão mostrar os gráficos que laboriosamente construíram nos últimos cinquenta minutos, eu vou analisar os gráficos que alguém me terá preparado na noite anterior.

Havemos de nos encontrar no avião das dezoito e cinquenta e cinco, eles com o gel no cabelo quase seco, o fato Massimo Dutti mais amarrotado, o cheiro do Hilfiger Man quase imperceptível, os gráficos dos portáteis substituídos por relatórios que terão que ler.

Entrego o meu casaco que não é Massimo Dutti à hospedeira, sinto-a aspirar o aroma de Bulgari Aqua, leio mais trinta páginas de Eça e penso que é uma sorte não pertencer à tribo do avião das sete e um quarto.

9.2.09

Esfíngico

De vez em quando lá tenho que me deslocar a umas jornadas de competências comportamentais. Desta vez tratava-se do estudo da informação que os olhos do nosso interlocutor transmitem. Quando se olha para cima e para a esqerda significa que se invocam memórias, quando se fixa o olhar no centro significa que estamos a faltar à verdade, quando o olhar é dirigido para baixo e para a direita significa já não me lembro o quê.

Os meus pensamentos são impenetráveis. Fixo sempre o olhar no decote.

7.2.09

Conselhos do Visconde (I)

Lembro-me perfeitamente do dia em que todas elas começaram a usar "soutiens" almofadados. Era Verão e elas começaram a aparecer-me no escritório com uns peitos três números acima dos do dia anterior. Não que eu repare no tamanho dos peitos, que fique claro, mas elas entravam sorridentes, altaneiras, poderosas, desafiadoras. Ao princípio ainda pensei que talvez algum cirurgião plástico lhes tivesse feito um desconto de quantidade, se fossem as quinze ele tirava vinte euros a cada uma e ainda lhes oferecia a lipoaspiração e assistência técnica por dois anos, mas, quando vi a Madalena, a que me traz o café das onze, a chegar com um sorriso enorme e uns peitos ainda mais enormes, percebi que tinha que haver ali coisa, a Madalena estava a pagar um plasma a prestações, não era altura de mais cavalarias. Não demorou muito a perceber a marosca, vinte segundos de um olhar treinado chegam e sobram para fazer um "scan" completo.

Nunca percebi o conceito dos "soutiens" almofadados, é como se nós colocássemos umas extensões de tubo plástico de quinze polegadas nos nossos membros viris, de maneira a que se criasse a ilusão "Nelson Évora naquela foto antes de fazer o primeiro ensaio nos Jogos Olímpicos". Não funciona, acreditem em mim, sei do que falo. Mais tarde ou mais cedo, dependendo da artes de cada um (no meu caso específico aplica-se a última parte da fórmula "mais tarde ou mais cedo"), a verdade vem ao de cima e é uma maçada para toda a gente.

Mind the gap

Ao lado do poster de "O Padrinho" que está no meu escritório de quase cinquenta metros quadrados, mesmo por trás da minha cadeira de design arrojado, há agora um aviso de "Mind the gap", essa associação de palavras que me tortura desde Heathrow até à estação de metro de Holborn, a mais próxima do meu hotel em Londres.

"Mind the gap". Para que não me esqueça do "gap", esse pequeno pormenor entre a carruagem de metro e a plataforma da estação, esse quase-nada que me pode fazer desequilibrar.

"Mind the gap", porque são os pormenores, sempre os pormenores, que podem fazer a diferença.