30.4.09

Quem me ensinou que um grande amor não se esquece, foi o meu Tio Lancastre.

Um dia, tinha eu acabado de perder o meu primeiro grande amor, entrei de rompante no escritório do Tio Lancastre e perguntei-lhe como se fazia para esquecer depressa um grande amor. O Tio Lancastre pousou a caneta de tinta permanente, ajeitou os óculos e nem sequer me repreendeu por eu não ter batido à porta antes de entrar. Sem falar, indicou-me uma cadeira perto de si, acendeu um Montecristo nº1 e explicou-me, com tempo, que um grande amor não se esquece, que ele, o meu Tio Lancastre, nunca esquecera nenhum dos seus grandes amores.

Abriu a primeira gaveta da secretária e tirou de lá uma caixa que eu nunca tinha visto, parecia uma cigarreira mas não podia ser uma cigarreira, a caixa era azul e não há cigarreiras azuis. Não a abriu, pousou as mãos sobre a tampa da caixa, como se tivesse medo que a tampa se soltasse de repente.

E explicou-me que devia arranjar uma caixa igual à dele, uma caixa que servisse para guardar as memórias dos grandes amores que eu fosse perdendo pela vida fora. Que nunca me esforçasse por esquecê-los, recomendou-me o Tio Lancastre. Porque os grandes amores nunca se esquecem.

(Talvez eu devesse ter escutado o meu Tio Lancastre. Talvez eu devesse ter arranjado uma caixa igual à dele.)

27.4.09

Dias da Música

É a senhora de idade que ressona na terceira fila, é o miúdo que se entusiasma com a pontuação na playstation portátil e leva um calduço do pai, é o rapazola que aplaude no fim de um andamento e olha em redor no fim da peça, para se certificar que, agora sim, é tempo de aplaudir, é a senhora que dorme todo o concerto e, no fim, aplaude fortemente e grita "Bravo!", de pé, é o senhor de chapéu e gravata com ar de melómano que se senta na primeira fila, é a senhora com ar agradável que se senta ao pé de mim e me pede o programa emprestado e se esquece de o devolver no fim, sou eu que adoro isto.

First, we take Manhattan...

Foto: Visconde de Vila do Conde

26.4.09

O que vejo da minha janela (VII)


Lisboa
Foto: Visconde de Vila do Conde

24.4.09

Se der...

Projectos para a semana que vem:

i) Despachar o Horácio Inácio, já não me faz falta.

ii) Tirar aquela fotografia dali. Foi tirada nos Pirinéus Franceses, a mais de dois mil e quinhentos metros de altura. Fazia sentido ter aquela foto ali, também eu estava a sair do nevoeiro quando nasceu este blog.

iii) Mudar as cores para verde Barclays.

O que vejo da minha janela (VI)



Foto: Visconde de Vila do Conde

22.4.09

Se toda gente faz um post sobre a Susan Boyle, porque é que eu havia de ficar de fora?

Sem que eu saiba muito bem porquê, eu bem sei que ela já nem sequer é uma cantora de jazz, até se me dá os nervos só de pensar que já a ouvi e pensei "que interessante cantora de jazz que nós aqui temos", sem que eu saiba bem porquê, a verdade é que continuo a delapidar o meu património na compra das músicas, ou lá o que é aquilo que vem nos CD's dela, da Diana Krall.

Hoje vinha a pensar nisto, cinquenta minutos de tédio dá para pensar em muita coisa, até mesmo no espaço que os CD's da Diana Krall ocupam, uma maçada, CD's muito bons empilhados por todo o lado e a Diana Krall ali a ocupar espaço vital, é uma pena não haver um banco dos CD's da Diana Krall, uma coisa assim do tipo Banco Alimentar Contra a Fome, só que com CD's da Diana Krall, as pessoas saíam da FNAC e entregavam os seus CD's da Diana Krall para que a Isabel Jonet os entregasse a quem mais necessitasse, isto se as pessoas pobrezinhas não levassem muito a mal ter que ouvir o último CD da Diana Krall, o Quiet Nights, principalmente aquela coisa inenarrável que é uma música que ela tenta cantar em brasileiro, nem ouvi que música é, mais de cinco segundos a ouvir aquilo faz-me descrer na raça humana.

E fiquei a pensar que, se a Diana Krall tivesse a cara daquela senhora escocesa do Chuva de Estrelas inglês, era capaz de não vender nenhum disco. Por outro lado, imaginem a tal senhora, dizem-me que se chama Susan Boyle, com aquela voz que o youtube diz que ela tem e com o bom aspecto da Diana Krall. E pronto, por agora era só, está despavhado o post sobre a senhora escocesa e ainda ficam a saber que acho que descobri porque é que a Diana Krall ainda me consegue fazer gastar quase quinze euros, três contos de reis, senhores...

20.4.09

Três dias de Bach

João Madureira vai recompor "A Arte da Fuga", Pinho Vargas vai compor um segundo andamento paro o "Brandburguês nº 3".

João Aboim vai interpretar ao piano a "Suite Francesa nº2", o King's Consort vai intrepretar a "Missa Luterana em Sol Maior".

E eu vou estar lá, para ver.

19.4.09

E o Underground, senhores...

Posso entrar no barco que sai do Pireu, sem saber o destino, apenas porque é o próximo barco que vai sair. Mas não tenho uma televisão de plasma, das grandes.

Posso ir jantar a Nova Iorque e regressar logo a seguir, só porque me convidaram. Mas não tenho uma televisão de plasma, das grandes.

Posso ir a Londres, só porque é o dia em que se comemoram os 250 anos de nascimento de Handel, e ouvir a sua música em Westminster. Mas não tenho uma televisão de plasma, das grandes.

Posso estar no bar do Sheraton e oferecer as bebidas a toda a gente que lá está, só porque estou a comemorar algo importante. Mas não tenho uma televisão de plasma, das grandes.

Posso oferecer o dinheiro que falta para que uma mulher traga os seus Christian Louboutin e o segurança da loja de Paris a deixe ir em paz. Mas não tenho uma televisão de plasma, das grandes.

Posso passear por Praga e comprar livros que nunca lerei, afinal não entendo nada de checo. Mas não tenho uma televisão de plasma, das grandes.

Posso ir ao concerto do Emir Kusturica e apetecer-me voar para casa para rever o Gato Preto, Gato Branco. Mas não tenho uma televisão de plasma, das grandes, e, se calhar, é melhor começar a pensar no assunto...

17.4.09

Coisas que eu sei

Quando pensamos em iguarias gourmet, nunca nos ocorre pensar em conservas. Às vezes penso que a minha missão no mundo é esta, descobrir o que há de bom e levar a boa nova a toda a gente.

As sardinhas em conserva "Cocagne" são peixes frescos, nunca menos de quatro por lata, enlatados durante os meses de boa sardinha, de Maio a Agosto, conservadas no melhor azeite português. A produção é quase toda exportada, ficam por cá apenas algumas latas que o produtor faz o favor de me reservar. Guardo-as em casa durante um ano, pelo menos. É depois deste tempo de armazenamento que o peixe ganha aroma, melhora o sabor.


Foto: Visconde de Vila do Conde


15.4.09

E isto não é coisa que se veja da minha janela...

Nada se compara a ter uma probabilidade de um para dez.

E correr bem.

(Ter sorte dá tanto, mas tanto trabalho...)

O que vejo da minha janela (V)


Londres
Foto: Visconde de Vila do Conde

12.4.09

O que vejo da minha janela (IV)

Entre-os Rios
Foto: Visconde de Vila do Conde

8.4.09

O que vejo da minha janela (III)


Newark, EUA

Foto: Visconde de Vila do Conde

2.4.09

Vertigem

Sente a neve a bater-te na cara, sente a vertigem da velocidade a aumentar ao mesmo ritmo do Ravel que te entra pelos ouvidos, sente o vento que te parece querer empurrar para fora da pista, tu sem veres nada, os óculos embaciados, a velocidade, sempre a velocidade, agora é Wagner, tu sabes que Wagner é uma boa banda sonora para pistas rápidas, não caias, és o único em pista, com este tempo estão todos a fazer massagens no spa do hotel, se cais não há quem te levante, desce, não penses em mais nada senão em descer, parece que o nevão acalmou, talvez seja do Grieg, não penses que lá em baixo há chocolate quente e hidromassagens, tu detestas hidromassagens, tu gostas deste frio que te corta, tu gostas de adivinhar a pista, gostas da neve a bater-te de frente, gostas de saber que não vais encontrar mais ninguém na pista, só queres chegar ao fim.

E limpas os óculos, relaxas o corpo, esticas os braços ao alto, sorris.

E sobes de novo.



Foto: Visconde de Vila do Conde

O que vejo da minha janela (II)

El Tarter, Andorra
Foto: Visconde de Vila do Conde