29.6.09

E hoje é um dia de chuva

O momento mais bonito do "La Tigre e la neve" são os dois segundos que separam o segundo quarenta e seis do segundo quarenta e oito, no minuto três. Os que são capazes de descodificar aquele sorriso do pianista, antes de atacar a parte final do "You can never hold back spring", sabem que foi precisamente naquele momento que o pianista entendeu que estava ali à sua frente uma história de amor. Bem podia o Roberto Benigni estar em roupa interior, bem podia a declaração de amor da Nicoletta Braschi parecer ridícula (eu sei, nenhuma declaração de amor é ridícula...), era tudo manobra de diversão para que ninguém, a não ser o pianista, entendesse que estava ali uma história de amor. E, todos o sabemos, nem sequer é da natureza dos pianistas intuir que estão defronte de histórias de amor. Aquele sorriso entre os três minutos e quarenta e seis e os três minutos e quarenta e oito vale o filme. Porque é o preciso momento em que o pianista percebe qua há ali uma história de amor e já não há muitas pessoas que percebam de histórias de amor.

28.6.09

Tio Lancastre, esse poço de saber...

Um dia, lembro-me perfeitamente que chovia como hoje, perguntei ao meu Tio Lancastre o que deveria fazer para ter a atenção das mulheres.

Enquanto o meu Tio Lancastre se recostava na sua poltrona e fumava o seu Cohiba Lanceros, fitando o fumo que subia quando puxava uma baforada, fui-lhe explicando que já tinha tentado ser cordial, já tinha tentado parecer uma alma sofredora e carente, já tinha tentado ser gentil, até já tinha tentado que elas acreditassem que eu era dono de um superior sentido de humor. Nada tinha resultado.

Então o meu Tio Lancastre olhou para um ponto atrás de mim, bebeu um gole de James Martin's, e, com a sua voz grave, aconselhou-me: "Ignora-as, meu filho...".

26.6.09

(Havemos de falar disto, mas agora tenho que ir ali tratar de um assunto extremamente prioritário)

O Senhor Visconde, essa alma benfazeja...

Não passo de um fiel servidor, bem sei. Mas tenho sentimentos, caramba! E eu gostava de escrever aqui, confesso-o. O Senhor Visconde teve um lampejo de humanidade (tão boa pessoa que ele é, até se me estão a lacrimejar os olhos...) e concedeu-me a subida honra de continuar a poder escrever aqui.

Sou novamente um homem feliz. Bem haja, Senhor Visconde, bem haja...

22.6.09

Dos cheiros

Mandasse eu nos destinos do universo e deliberaria que o primeiro ensinamento a ser transmitido às mulheres seria uma explicação detalhada sobre a mensagem subliminar implícita que existe no acto de um homem mudar de cheiro.

Se o número de homens que considera, sob um ponto de vista académico, a possibilidade de mudar de cheiro por sugestão de uma mulher é quase irrelevante em termos estatísticos, então o número de homens que toma a decisão de efectivamente mudar é quase nulo. Na verdade, há apenas alguns registos vagos e difusos sobre homens que mudam de cheiro, tal é a dimensão do novo paradigma e tal é a alteração dos valores do mundo masculino que tal decisão implica. É sabido que existem milhões de frasquinhos de odores oferecidos por elas nos fundos dos armários dos homens e que nunca serão utilizados. O mundo da cosmética olvida este axioma e continua a produzir cheiros que não serão nunca utilizados pelos homens por não coincidirem com o elaborado genótipo do sistema principal de histocompatibilidade masculino. Todos ficam felizes, principalmente o mundo da cosmética que continua a crescer a dois dígitos por ano, produzindo odores que nunca sairão de frascos de cinquenta mililitros.

Elas sugerem que mudemos de cheiro por variadas razões, quase sempre relacionadas com a recordação de um bom momento passado com alguém que não nós. Nós agradecemos a sugestão, mas resistimos a mudar de cheiro. Temos um cheiro nosso, que já deu provas mais do que suficientes de ser eficiente na prossecução dos nobres objectivos da disseminação das nossas qualidades. O nosso cheiro já nos proporcionou um sem número de empatias odoríficas que acabaram por nos mostrar o encantador mundo da diversidade genética. Nunca há uma razão suficientemente razoável para que um homem mude de cheiro, qualquer macho-alfa conhece esta verdade.

Por isso, quando um homem considera mudar o seu cheiro, há todo um conjunto de informação que está a passar para uma mulher. Algumas captam a beleza do momento. Outras não.

21.6.09

Da amizade

O telemóvel avisa-me, com uma ligeira vibração, que há sete amigos que esperam por mim no Facebook .

Olho em volta. Estão sentados à minha mesa quase todos os meus amigos. Sorrio e proponho um brinde. À amizade.

19.6.09

E não me importei com os comentários dos camareros, entre si, com ar respeitoso: "Es un amigo de Ramon..."

"Cenar en Botin, sin reserva? Claro, no hay nada que sea imposible a Ramon!", disse-me o recepcionista do hotel, um tipo com um ar claramente efeminado.


E assim foi, descobri que, em vez de tentar marcar vezes sem conta uma mesa no Botín, o mais antigo restaurante do mundo, deveria ter pedido ao Ramon que me fizesse a reserva.

16.6.09

Ah, o meu Tio Lancastre...

O meu Tio Lancastre ensinou-me que nunca se deve escrever sobre sexo, que é deselegante escrever sobre sexo. Por isso, este post não é sobre sexo, não se espere que aqui se escreva que a melhor forma de seduzir uma mulher é fazer com que ela se sinta desejada, nunca escreverei isso, compreendam, prometi-o ao meu Tio Lancastre.

Também lhe prometi que jamais revelaria que um amante agradável deverá saber, a cada momento, calibrar os sentidos para apreciar as texturas, os olhares, os sons e os cheiros, que terá que ser suficientemente seguro para se deixar levar e para saber dizer "Ensina-me", olhando-a nos olhos, que tem que saber excitar-lhe a mente antes do corpo, que tem que começar com ternura, acelerar o ritmo e terminar com suavidade, que uma boa noite de sexo começa pela manhã, prolonga-se com um bom jogo de sedução ao longo da tarde que a fará arrepiar o corpo de ansiedade.

Se o meu Tio Lancastre não me tivesse ensinado que é deselegante escrever sobre sexo, eu era capaz de vos contar o que ele me ensinou. Agora, assim...

13.6.09

Nunca voltes ao carro com que já foste feliz


Comme s'il en pleuvait

Bem pode o Brent subir aos setenta e dois dólares, bem pode o Cristiano Ronaldo passar a noite com a Paris Hilton, bem pode o João Rendeiro mandar dizer que, pudesse ele, e eu tinha ao meu dispor cem mil euros, bem pode o Ahmadinejad ganhar as eleições no Irão, bem pode Pyongyang ter um programa de enriquecimento de urânio.

O mundo virado do avesso que me perdoe, mas não havia como me impedir de estar ontem no concerto da Mayra Andrade.

11.6.09

Ou não, ou não...

Ainda ontem, uma jovem rapariga entrou de rompante na cabine de provas onde eu me encontrava a experimentar umas calças tamanho cinquenta e seis. Durante meio segundo, a jovem rapariga percorreu com os olhos cada milímetro do meu corpo, notando-se na sua expressão incredulidade com tudo o que via.

"Desculpe, lamento muito", desculpou-se ela, fechando de novo a porta.

Fiquei a pensar se a rapariga, com aquele "Desculpe, lamento muito", pretendia que eu desculpasse a sua entrada intempestiva ou se apresentava desculpas, em nome da mãe-natureza, lamentando aquilo que acabava de ver.

(Esta música que se ouve em fundo é Bécaud, Gilbert Bécaud)

Nas coisas do dia-a-dia, por exemplo, saber detalhar a correlação entre a evolução do Arabian Light e do índice Henry Hub, ou conseguir distinguir os sistemas de suspensão hidropneumática do DS19 e do SM, eu sinto que sou capaz.

As minhas dificuldades são as temáticas que implicam o domínio de conhecimentos verdadeiramente avançados, cuja complexidade não está ao alcance de pessoas comuns.

Perceber as mulheres, por exemplo.

10.6.09

Já está pronta para ler, a colheita de 2004

A Feira do Livro serve para isso mesmo, compram-se livros por impulso, que isto de comprar livros por impulso, ainda para mais na Feira do Livro não fica mal a niguém. Depois, deixam-se os livros a marinar, num sótão arejado. Três, quatro anos, vão-se mudando os livros que estão no cimo das pilhas de livros, para que todos apanhem as mesmas quantidades de sol nas capas e de pó nas lombadas.

E depois, num feriado, num jeito dispilicente, com aquele ar de quem vai ao sótão só para procurar uns mapas e escolher por impulso onde serão as férias deste ano, pega-se num dos livros da Feira do Livro, colheita de dois mil e quatro.

E, caralhosmafodam, se o "Deus das Pequenas Coisas", tirado ao acaso, do meio da pilha de livros, não é um grande livro...

9.6.09

Plano ainda mais infalível para aquilo da vizinha finlandesa

Passo 1: Passar pelo cabeleireiro e fazer umas madeixas brancas no cabelo. Fazer uma semana de solário com uma aliança na mão esquerda, de forma a que, no final, quando tirar a aliança, fique bem visível a sua marca. Pedir a um especialista que me marque umas rugas no rosto.

Passo 2: Com o ar de ter envelhecido quinze anos, colocar-me deitado à porta da vizinha finlandesa, do lado de fora, absolutamente nu. Fingir-me inconsciente.

Passo 3: A vizinha finlandesa não pode deixar de tropeçar em mim, ou, pelo menos, numa parte de mim, quando resolver sair de casa. Nessa altura, balbuciar umas palavras desconexas e, antes dela gritar por socorro, perguntar em que dia estamos. Ela vai responder que estamos no dia 9 de Junho. Perguntar de que ano. Ela vai responder “de 2009”. Dizer “Graças a Deus, a máquina do tempo funcionou! Louvado seja o Senhor!”.

Passo 4: Dizer à vizinha que acabei de regressar do futuro, mais precisamente do ano de 2024. Como ela sabe, as máquinas do tempo não permitem que os objectos acompanhem os corpos na viagem para o passado, aliás, é por isso que a roupa não viajou comigo. Nem a aliança (deixar que ela veja a marca).

Passo 5: Dizer à vizinha finlandesa que, no futuro, ela estará casada comigo e não com o imbecil com quem ela namora agora. A marca da aliança prova isso mesmo. No futuro, nós seremos muito felizes, mas, primeiro, ela passará muitas dificuldades com o actual namorado, que a tratará tão mal que ela vai ter uma enorme depressão e vai engordar obscenamente. Aliás, é por isso que eu estou a voltar do futuro, para lhe poupar sofrimento. Além disso, o actual namorado dela vai sofrer uma rara doença que afectará irreversivelmente o seu desempenho sexual, o namorado não aceitará e vai fazer um tratamento que lhe vai fazer cair o cabelo, ela vai deprimir ainda mais e vai passar as noites a comer gomas e vai engordar ainda mais.

Passo 6
: Se ela achar que a minha explicação é desprovida de sentido, introduzir uma explicação que implique os vectores espaço-tempo e a sua relação com as teorias evolucionistas. Ela vai preferir aceitar a explicação simples a argumentar comigo.

Passo 7: Dizer que ela pode escolher o seu próprio caminho e beijá-la com confiança (afinal, já nos beijámos milhões de vezes no futuro…). Dizer que a máquina do tempo pode vir buscar-me a qualquer momento ao passado, a menos que ela desligue todos os relógios da casa, para prolongar a minha estadia no tempo presente (ou passado, no meu ponto de vista). Desaparecer enquanto ela desliga os relógios do leitor de DVD, da cozinha do ar condicionado, dos telemóveis.

Passo 8: Desaparecer por uma semana, até passar o efeito do bronzeado e não se ver a marca da aliança. Tirar as madeixas brancas e retirar as rugas postiças.

Passo 9
: Depois de regressar de uma semana em Londres, em negócios, estranhar ver a vizinha finlandesa à porta de minha casa.

Passo 10: Ela vai beijar-me fervorosamente, agradecendo-me ser o responsável por ela nunca vir a engordar no futuro.

Passo 11: Sorrir.

(Escrito a partir de uma ideia-base que li num blog inglês, a que não consigo aceder de novo para creditar a ideia original)

8.6.09

Técnica infalível para me apresentar à vizinha finlandesa

Dia Zero:

1) Arranjar uma foto da melhor amiga dela. Arranjar uma foto minha, em que eu esteja vestido só com uns boxers Calvin Klein. Trabalhar as duas fotos no Photoshop e obter uma terceira foto, em que esteja eu com os meus boxers, sorridente, a fumar um cigarro e a melhor amiga da minha vizinha finlandesa, com ar saciado.
2) Meter a foto dentro de um envelope. Escrever no envelope, em letras grandes, “Visconde de Vila do Conde” como destinatário. Escrever os dizeres “Confidencial” e “A abrir só pelo destinatário”.
3) Selar o envelope com lacre. Meter o envelope na caixa do correio da minha vizinha finlandesa. Aguardar.

Dia Um:

1) Falar com o porteiro do XL para me reservar a melhor mesa do restaurante para o jantar do dia seguinte.
2) Prometer ao chefe de sala do XL uma generosa gratificação para que ele me diga aleatoriamente as palavras “Senhor Visconde, nunca o vi com tão bela companhia” quando me levar à mesa
3) Fazer de conta que não reparo no reflexo que o sol faz nos binóculos que a minha vizinha finlandesa está a usar enquanto eu apanho sol no meu relvado
4) Combinar com um grupo de romenos uma simulação de assalto à minha vizinha finlandesa, a cinquenta metros do XL, para o dia seguinte

Dia Dois:

1) Cumprimentar o porteiro do condomínio fechado onde vivo e dizer-lhe que vou jantar ao XL.
2) Dirigir-me ao XL, fazendo de conta que não noto que o CLK da minha vizinha finlandesa me segue a uma distância confortável
3) Estacionar o carro a setenta e cinco metros do XL, depois de ignorar um óptimo lugar a cinquenta metros do XL
4) Correr para o grupo de quinze romenos que pretendem assaltar a minha vizinha finlandesa
5) Gritar, com voz possante, “Fora daqui, facínoras, ou então vão ter que se bater comigo”.
6) Acalmar a minha vizinha finlandesa, enquanto os quinze romenos se afastam a correr, assustados
7) Perguntar à minha vizinha finlandesa se não quer um copo de água com açúcar no XL
8) Sentar-me à mesa e ver a minha vizinha finlandesa recuperar as cores, depois do chefe de sala ter dito as palavras “Senhor Visconde, nunca o vi com tão bela companhia”
9) Pagar o jantar e despedir-me dela com um “Havemos de nos ver por aí”. Fazer de conta que não reparo no ar de decepção da minha vizinha finlandesa.

Dia três:

1) Tomar banho na piscina. De acordo com as escrituras, a vizinha finlandesa tocará à campainha em menos de cinco minutos
2) Abrir a porta envolvido num roupão felpudo
3) Escutar atentamente a vizinha finlandesa que me diz “Vinha entregar-lhe isto, acabo de ir à minha caixa do correio e parece-me que é importante”.
4) Fazer de conta que não tinha visto o envelope no banco do CLK da minha vizinha no dia anterior. Fazer de conta que não reparo que o lacre está quebrado
5) Puxá-la para mim enquanto deixo cair o roupão e digo “Nada é mais urgente do que nós dois”
6) Isso.

6.6.09

Se calhar foi porque ontem vesti o meu fato Boss

Hoje sonhei com aquela miúda que aparecia no vídeo do Springsteen, o Dancing in the dark, o Boss estava ali a fazer de conta que dava uns passos de dança,e, do meio da multidão escolhia-a a ela, não sei se estão a visualizar a situação, era um concerto do Boss, o Boss apontava para ela, dizia "Hey baby!", puxava-a para cima do palco e dançavam os dois, não sei se estão a ver o que era o Boss há vinte e cinco anos, calça de ganga justa e camisa branca aberta.

Lembro-me que a miúda não sabia muito bem o que havia de fazer, por um lado estava feliz por estar ali em palco, escolhida pelo Boss, por outro lado percebia-se que não sabia muito bem o que havia de fazer, se dançar agarrada ao Boss, se dançar afastada, a miúda acabava por imitar os passos do Boss e aquilo não ficava bem, o Boss não era especialmente conhecido pela forma como dançava.

Isto é capaz de ser uma parábola, a parábola do Boss e da miúda que ele puxou para o palco. E é capaz de ter alguma mensagem, mas eu sempre fui mau a decifrar mensagens.

Não são precisos dois para ouvir tango

4.6.09

Tudo boas marcas...

Parece que o Benfica é uma das Superbrand 2009. O Halibut também.

2.6.09

Andante, andante.

É verdade, parecendo que não, ainda cá estou. Parece que não estou, bem sei, o problema são estes dias que eu gostaria que fossem andante, andante, mas não são, de um momento para o outro parece que está a acontecer alguma coisa aos mercados, pois se até a General Motors tem problemas, porque razão é que eu havia de ter dias andante, andante?

E, estando a acontecer alguma coisa aos mercados, estes dias que se queriam andante, andante, transfiguram-se, tenho pesadelos com o Senhor Bloomberg , que me segreda ao ouvido que os forecast de ontem já não servem, logo a mim que nem sei o que são forecast, mas se o Senhor Bloomberg me diz para usar outros é porque é capaz de ser coisa séria e é melhor reagir depressa, pode até acontecer que os meus dias andante, andante não voltem nunca.

E bem me podem dizer que para a semana é que é, que os astros se alinham para que, em vez de um dia andante, andante, tenha toda uma semana andante, andante, as coisas não são assim tão simples, o meu fuso horário é o de Madrid.