31.7.09

Cohen, Leonard Cohen

Tenho uma certa tendência para não estar no sítio certo à hora exacta. Bem sei, é uma lacuna enorme, mas acontece-me bastas vezes estar no sítio errado ou, em estando no sítio certo, não estar lá à hora que devia estar. Acontece-me mesmo conseguir o pleno, estar no sítio errado á hora errada, pouca gente consegue isto, mas eu consigo e ainda não percebi se é coisa boa ou se é coisa ruim, mas quer-me parecer que nem uma coisa nem outra.

Quando me acontece estar no sítio certo à hora certa, espanto-me comigo mesmo, dou comigo a pensar que é fantástico que os astros se tenham alinhado de tal forma, que as borboletas tenham batido as asas com tal cadência numa precisa localização, que as conjunturas e os enquadramentos e as idiossincracias e os pequenos nadas e a autorização da minha secretária se tenham enquadrado de forma tão perfeita, que o resultado, uma quase improbabilidade estatística, tenha sido eu estar no sítio certo à hora certa.

30.7.09

Curvas belíssimas

Eu tenho para mim que nunca aqui escrevi sobre bola. E eu, em falando sobre bola, notem, não falo, nunca falarei sobre futebol, o futebol é um desporto e, toda a gente sabe isto, no desporto, ganhar ou perder é igual, o que importa é competir. Na bola não, quando se fala de bola não há cá essas frescuras de ganhar ou perder ser igual, não, quando vou à bola levo um cachecol da minha equipa, está bem que não grito "Floribella" quando o Djaló toca na bola, caramba, também tenho os meus princípios, mas digo caralhadas quando o Pedro Silva falha um passe, não acerta com uma marcação ou é comido por um qualquer jogador do Twente, ou lá como se chamavam os tipos, logo, quero que a minha equipa ganhe, foi para isso que eu lá fui, embora também, quase sempre, vá lá para beber uma ou duas imperiais no fim do jogo, ali nas roulottes, acompanhada de uma bifana, também há entremeada e torresmos, mas, já vos tinha dito, tenho os meus princípios.

E eu nunca tinha escrito sobre bola e parece-me que também não foi desta, isto, não parecendo, não tem nada a ver com bola.

26.7.09

Ramon, de Madrid

O Ramon, que é quase meu amigo, isto do conceito de "meu amigo" é um conceito assim para o blindado, está bem que o Ramon sabe como conseguir lugar nos restaurantes onde nunca se arranja lugar, está bem que o Ramon sabe exactamente como eu gosto que me sirvam a cerveja, está bem que o Ramon sabe o que gosto de tapear pelas sete da tarde, mas, lá está, o Ramon não é mais que meu quase amigo.

O Ramon, dizia eu, trata-me por "Campeón". Não que desconheça o meu nome, note-se, o Ramon sabe que me chamo Visconde. Mas trata-me por "Campeón". É uma bonita história, se calhar conto-a aqui um dia destes. Em me apetecendo.

Com vista para os reactores, não sei se estão a ver

Gosto da cadeira 6A, a cadeira 6A está para os A319 como uma cadeira "ao meio e ao centro" está para uma sala de cinema.

20.7.09

Dos livros na praia

Escolho as leituras de praia, criteriosamente. O que leio na praia passa uma mensagem subliminar sobre o tipo de pessoa que sou, cria empatias ou afasta quem passa por perto do meu território de areia. Este ano, se escolher o último do Miguel Sousa Tavares, sentir-me-ei a fazer parte de um grupo, sei que, mais tarde ou mais cedo, alguém me vai perguntar se aconselho o livro, eu vou tirar os olhos do livro, vou subir os óculos de sol para a testa e, depois de um olhar rápido para a minha interlocutora (os homens nunca me perguntam nada sobre livros) decido se lhe atiro com um "não vale a pena comprar" ou se prescindo de algum do meu precioso tempo para explicar criteriosamente o conceito de "quase romance" segundo o autor, estabelecendo os devidos paralelos com a obra anterior, detendo-me exaustivamente no "Não te deixarei morrer, David Crockett". Por outro lado, se escolher ler Sartre, no original, sei que haverá uma senhora idosa (mais de quarenta e cinco anos, portanto), lá pelo final da tarde, olhar meio alucinado, que me dirá que leu Sartre em finais dos anos setenta. Eu acenarei que sim com a cabeça nos primeiros cinco minutos, direi algo de inteligente sobre os pontos comuns ao pensamento de Sartre e Engels e, em me fartando, levantarei os braços, esbugalharei os olhos e gritarei "MADEIRAAAAAAAAA!" aos ouvidos da velha senhora, voltando imediatamente ao meu estado normal, como se nada tivesse acontecido. A velha senhora acabará por se afastar, ficando uns momentos à conversa com o tipo do bar, ambos a vigiar-me pelo canto do olho e a falar baixinho. Se ler "O velho e o mar", aparecerá certamente uma jovem, tereré numa madeixa de cabelo, que se estenderá sem cerimónia a meu lado e me falará da sensação de liberdade que existe nos desertos (nunca perguntei às jovens com tereré no cabelo a relação entre o Velho e o Mar e desertos).

Recordo com saudade os efeitos colaterais do ano em que elegi a Bíblia Sagrada como minha leitura de praia. Nesse ano de boa memória, todos guardavam uma prudente distância e definiam um perímetro de segurança para o sítio onde eu me instalava. Criancinhas faziam os seus castelos de areia longe do meu horizonte, jovens com as hormonas sobressaltadas observavam uma distância razoável para as suas demonstrações de afecto pela companheira, jogadores de futebol de praia evitavam diplomaticamente estar dentro da área em que eu pudesse estabelecer contacto visual.

Este ano? Ainda não decidi.

19.7.09

Mudar o mundo

Talvez consiga trocar este blog por uma lata de Coca-Cola light...

14.7.09

Do Gin a meio da tarde

Rapazito, não te aproximes, é o meu momento do gin tónico a meio da tarde, não sei se decifraste aquele gesto que acabei de fazer ao empregado, o polegar e o indicador na horizontal, sete centímetros a separá-los, o empregado sabe que aquela é a medida de gin que eu quero, rapazito, não te aproximes agora, a sério, está calor e eu preciso mesmo deste gin tónico, rapazito, a tua mãe acabou de sorrir, caramba, é mesmo bonita, porque será que ela não te chama para junto dela?, olha, continua a sorrir por cima da revista que está a ler, hum, é o Courrier Internacional, sempre gostava de saber se estará a ler a reportagem sobre aqulio das prisões na Bolívia, acho que é na Bolívia, eu não gostei nada de saber que há gente que paga para visitar prisões, soou-me mal, rapazito, não te aproximes, vá lá, é a minha hora do gin tónico, rapazito, adivinhaste que eu gosto de miúdos com ar de reguila, vou mostrar-te o meu truque da língua que atravessa o guardanapo de papel, que belo sorriso o teu, rapazito, olha, a tua mãe também sorriu, chamas-te João?, eu chamo-me Visconde, bem sei, estão sempre a dizer-mo, bem sei que não é um nome muito comum, Visconde de quê? De Vila do Conde rapazito, olha, a tua mãe não tira os olhos de mim, mas, sabes, rapazito? agora somos amigos e não se deve reparar que as mães dos nossos amigos nos estão a sorrir, certo?

Dos livros, e isso

Gosto de alfarrabistas, gosto do cheiro a livros lidos, gosto de os folhear e imaginar quem os terá lido antes de mim, gosto de me perguntar se os parágrafos que mais me impressionaram terão tido o mesmo efeito no antigo dono do livro, gosto de capas comidas pelo sol, gosto de lombadas com pó.

12.7.09

Dia de corridas

Talvez tivesse sido melhor se não nos tivéssemos conhecido num dia de fato às riscas. Tu não sabes, mas os dias de fato às riscas, sapatos engraxados e nó de gravata irrepreensível, esses dias em que utilizo os talheres certos, não são os meus melhores dias.

Talvez nos devêssemos ter conhecido num dia de calças de ganga e t-shirt branca.

10.7.09

Esta semana

... ganhei e perdi, arrisquei tudo e depois não valeu a pena, esqueci-me de coisas importantes, falhei encontros que não podia ter falhado, salvei-me no último segundo, dormi, por alto, umas vinte horas, precisei que tomassem conta de mim.

Mas aguento-me.

6.7.09

O que vejo da minha janela (VIII)

Proença-a-Nova
Foto: Visconde de Vila do Conde

5.7.09

Turn off's (I)

Podes chegar empoleirada nos teus Louboutin's, podes explicar-me porque preferes o L'Ambroise ao L'Arpége quando estás em Paris, podes cheirar a madeiras almiscaradas e a flores raras, podes recomendar-me as costeletas com chutney de pêra e cebola em vez do filet mignon com redução de Porto que era a minha escolha, mas a verdade é que não tiraste os cotovelos de cima da mesa durante todo o jantar.

Joaquin Sorolla, no Museu do Prado

A Vueling tem um voo de Lisboa às dez da manhã com regresso de Madrid às oito da noite por quarenta e quatro Euros, por quatro Euros faz-se o percurso de Metro Aeroporto-Prado-Aeroporto, a entrada no Prado custa dez euros, come-se no Restaurante do Prado por menos de vinte Euros. Ou seja, por menos de oitenta Euros podem ver este quadro (o meu preferido) e os outros cem que lá estão expostos. Oitenta Euros. Menos do que custa passar um dia na Costa da Caparica, com os miúdos, o desgaste do carro, os miúdos a pedir hamburgers e gelados, o trânsito, a gasolina que está tão cara (malandros...), o bronzeador factor sessenta, caríssimo.

(E ainda nos podemos encontrar lá...)

4.7.09

San Fermin

E ao terceiro dia, dou-me conta de que não dediquei nenhum do meu tempo a reflectir sobre a problemática da saída do ex-Ministro da Economia. A única coisa que se me oferece dizer sobre o caso é que percebo perfeitamente que a mulher de Bernardino Soares tenha feito o que fez.

3.7.09

E também sei fazer o melhor Gin Tónico da cidade...

De que me serve saber que Domenicos Theotolopoulos e "El Greco" são a mesma pessoa, de que me serve distinguir exactamente o sabor de um Robusta de um Arabica, de que me serve ser capaz de reconhecer nos primeiros cinco segundos que obra de Bach estou a ouvir, de que me serve saber qual é a relação entre o "Massacre na Coreia" de Picasso, "A execução de Maximiliano" de Manet e o "Três de Maio" de Goya, de que me servem estes saberes se não sei entender o que me dizes?