31.12.09

Não é que esteja a desejar bom ano a ninguém

Talvez eu não devesse ter substituido as doze passas por doze shots de gin, já lá vão muitos anos, é uma tradição e toda a gente sabe que as tradições são para se cumprir, que importa que sejam tradições de um ano só, afinal de contas quem decide se é tradição, ou não, sou eu e, em eu decidindo que doze shots de gin é que é, a coisa ganha logo uma dinâmica própria, torna-se lenda, há seguidores disponíveis para abraçar a novel tradição, cada um nasce para o que nasce, eu nasci para opinion-maker, é eu decidir que a coisa tem que se dar com doze shots de gin e é ver as passas de uva a apodrecer de um ano para o outro e as garrafas de Gordon's a desaparecer das prateleiras dos supermercados do mundo inteiro, as acções da Alexander Gordon's & Company a disparar.

Em substituindo as doze passas por doze shots de gin as decisões de ano novo ganham uma nova dimensão, é acordo tácito que tudo o que se disser entre a meia noite e as duas da manhã vale tanto como o nosso treinador dizer que ainda vamos a tempo, que o balneário já sorri, caramba, são doze shots de gin, a credibilidade que se dá à promessa de perder peso, de comer mais alface, de fazer mais exercício físico, de dormir mais horas, de fazer voluntariado, a credibilidade destas sábias decisões de ano novo é zero, talvez, e aqui ressalvo o "talvez", a única decisão de ano novo credível é a de jurar nunca mais tocar em gin e, mesmo essa, vale até Março, Abril, vá.

28.12.09

Coisas que eu nunca saberia se hoje tivesse sido um dia de trabalho

1) A música do anúncio do "Pingo Doce" passa em contínuo nos supermercados "Pingo Doce"

2) Não pude deixar de verificar que é paradoxal que o Honda CRX do indivíduo de raça negra que ficou sem gasolina na segunda circular tenha ficado parado debaixo da ponte pedonal que tem o anúncio da Repsol

3) A senhora com ar extremamente agradável que me perguntou hoje na Garrafeira Nacional, ali à Rua de Santa Justa, se eu a poderia ajudar, confundindo-me com um colaborador da loja (de onde se verifica que eu deveria ter feito a barba hoje), não esperou pela minha resposta à sua pergunta

4) O Dave vai ter um tremendo problema com o Alvin e a Britanny, ainda para mais o Dave está todo entrevadinho, coitado, não vai conta da maluqueira daqueles dois.

5) Não pude deixar de ouvir uma senhora a comentar com uma amiga ao telefone que a palavra "paralelipédico" é óptima para o parceiro dizer enquanto pratica "cunnilingus" (o que quer que seja isso de "cunnilingus")

Este ano...

...esquiei em pistas pretas em Andorra, comprei um fato em Nova Iorque, escalei montanhas na Suiça, fui à ópera em Milão, comi fish and chips em Londres, jantei no Guggenheim em Bilbau, passei o Natal em Paris, bebi chá em Berna, perdi-me em Genéve, cheguei um dia atrasado ao festival de Locarno, vi Sorolla em Madrid, fiz as compras de Natal no Porto.

Este ano podia ter corrido melhor.

Do (meu) Natal


22.12.09

Homilia da manhã

E, no entanto, eu teria tudo para detestar o Natal. Centros comerciais, presentes vulgares, só para fazer número, pessoas desfocadas da realidade que é o binómio "rendimento disponível vs monte de dinheiro que gastei em inutilidades", comerciantes que se queixam, queixam-se sempre, é da natureza dos comerciantes, jantares com quem não se gosta, a sorrir e a pensar com quem se devia estar nesse momento, e não era com aquele estafermo que ainda ontem nos gamou os clips todos, a cabra, amigos que nos oferecem o Rodrigues dos Santos, que colocamos ao lado dos outros Rodrigues dos Santos, ainda se ao menos juntassem o talão da FNAC para trocar os dezassete Rodrigues dos Santos pelo último do Dennis McShade, a Tia Josefina que nos visita sempre por esta altura, antigamente ainda nos trazia uma nota de cinco contos e um queijo da serra daqueles caseiros, agora nada, puta da velha, ainda por cima implica com os talheres Cutipol, os dela são Christofle, está bem que já só tem três garfos de carne e uma colher de sopa, mas são Christofle, como eu ia dizendo, repare, já escrevo "ia" em vez de "ía", ia eu dizendo que eu teria tudo para detestar o Natal.

Mas não.

21.12.09

Das criancinhas

No início, o meu método para controlar as criancinhas que correm desenfreadamente por entre as mesas de restaurantes, sem que os progenitores lhes estabeleçam um território, uma norma, uma regra que seja para salvaguardar a sã convivência entre os seus filhos e os restantes comensais, o meu método, dizia eu, era eficaz, porém básico. Consistia em agarrar a criancinha pela gola do casaco, utilizando apenas o polegar e o indicador, quando as crianças invadiam o meu espaço vital pela terceira vez. Levantava-me, tranquilamente, criancinha pendurada, a esbracejar, tentando libertar-se da tenaz em que se transformavam o meu indicador e polegar, e depositava-a junto de seus pais, murmurando entre dentes "não quero voltar a encontrá-lo a menos de vinte metros do meu gin tónico". Virava costas e as pessoas acabavam por pagar a conta rapidamente e sair, provavelmente para o centro comercial mais próximo, onde, com toda a certeza, os caminhos daquela família não se cruzariam com os meus.

Com o tempo fui aprimorando a técnica até à maravilha de eficácia que é hoje e que consiste, basicamente, em fixar um olhar gelado na criancinha. A criancinha está habituada a que lhe achem graça a todas as tropelias e não está preparada psicologicamente para enfrentar um olhar gelado de cada vez que se aproxima de pessoassó para lhes atirar um objecto qualquer. O olhar gelado consiste em seguir os movimentos da criança, sem desviar o olhar, a criancinha linda vai-se esgueirando, esboçará um sorriso para nos conquistar, resulta em noventa e oito por cento dos casos, a criancinha realiza que não está a ter sucesso, vai-se afastando, de vez em quando olha para trás, só para se certificar que ainda estou ali, sim, confirma-se, o meu olhar gélido continua a fixar a criancinha, a criancinha começa a ficar com movimentos cada vez mais lentos, significa que o olhar gelado está a resultar, resulta sempre, a criancinha aproxima-se da mãe que lhe estende os braços gordos, repletos daquelas pulseiras da Pandora com as inciais do nome da criancinha e dos primos da criancinha, começa a tremer o beiço da criancinha, o pai, calças Armani e camisa preta justa, faz uma tentativa de interrogar a criancinha, a criancinha no meio do berreiro ainda esboça o gesto de apontar na minha direcção, arrepende-se a meio, o meu olhar gelado mantém-se, os pais da criancinha acabam por concluir que é sono, é sempre sono quando as criancinhas são mal educadas, pagam rapidamente e saem para o centro comercial onde os meus caminhos e os daquela família certamente não se cruzarão.

19.12.09

Basicamente foi isto, encerro aqui o capítulo alla Scala

Da violência doméstica

O grande erro do Don Jose foi ter suplicado o amor de Carmen

Carmen, je t'aime, je t'adore!
Et bien! s'il le faut, pour le plaire,
Je resterai bandit ... tout ce que tu voudras...
Tout! tu m'entends ... tout!
Mais ne me quitte pas,
Ô ma Carmen! ah!
Souviens tu du passé! Nous nous aimons naguère!
(désespéré)
Ah! ne me quitte pas, Carmen,
Ah! ne me quitte pas!

Não há quem não saiba, tirando Don Jose, lá está, que o amor não se suplica e, em um homem suplicando o amor, não pode esperar outra coisa senão

Jamais Carmen ne cédera!
Libre elle est née et libre elle mourra!

Reparem, Carmen está prestes a cair nos braços de Escamillo, logo, não se trata de manter a sua liberdade, a questão é que não há nada mais ridículo, não existe maior turn-off que um homem ajoelhar-se e suplicar o amor de uma mulher.

Tivesse Don Jose sabido congelar a emoção e as coisas teriam corrido melhor, Carmen e Escamillo haviam de se desentender, aqui convirá recordar que Escamillo não era homem de uma mulher só e não me quer parecer que Carmen mais os seus nervos à flor da pele suportassem um Escamillo cheio de aventuras extraconjugais, a coisa aguentava-se mais um ou dois meses, Carmen havia de se fartar, ainda para mais em Sevilha, aquilo é tão quente, e, em se fartando das desculpas esfarrapadas de Escamillo, um dia sair para comprar cigarros e encontrava os amigos e tinham ido ali só matar um touro ou dois para desenferrujar, outro dia tinha saido para espairecer e beber manzanilla na taberna do Lillas Pastia, Carmen havia de se lembrar do bom Don Jose, que estaria ele a fazer?, caramba, pensaria ainda nela?, e lá iria Carmen procurar conforto em Don Jose, as coisas haviam de ser frias ao princípio, Don Jose havia de saborear longamente a pequena vitória, mas, talvez numa noite de luar ou de chuva forte, estas coisas tendem a acontecer sempre em noites de luar ou de chuva forte, havia finalmente de aceitar o amor de Carmen e viveriam felizes para sempre, o que, pensando bem, talvez Bizet tivesse ponderado mas terá abandonado este final alternativo porque é sempre mais dramático um homem despeitado pegar na faca e matar a sua amada, se não és para mim, não serás para o matador de touros, era só o que faltava.

17.12.09

Dos terramotos

Sim, hoje senti um terramoto.

Na alma.

16.12.09

Adoro o Natal

Sexta-feira, gin tónico no bar do Zé Carlos, depois do concerto de Domingos António.

Sábado, gin tónico no Gattopardo, em Milão, depois de jantar no Et de Milan.

Domingo, gin tónico no Boeucc, depois da ópera no Scala.

Segunda, gin tónico no Hesperia de Madrid, depois de apostar tudo numa ideia.

Terça, gin tónico no Casino do Estoril, depois de ganhar na roleta e perder no blackjack.

14.12.09

Do Scala (Horacio's perspective)

Com tanta boazona a passear-se nas Galerias Victor Emmanuel durante a tarde, logo haviam de calhar duas velhas, uma de cada lado, à noite na Ópera...

Do Scala (I)

A entrada do toreador Escamillo na "Carmen" é igualzinha à entrada do Rum Tum Tugger no "Cats".

12.12.09

Da relativização

Em dias como o de ontem, em que o Brent evolui no sentido contrário às minhas convicções, em que os mercados "spot" ficam mais líquidos do que previ, em que as correlações que incluem o dólar me são desfavoráveis, chego ao fim do dia deveras aborrecido com o mundo em geral e com a minha intuição em particular.

É em noites assim que normalmente deixo que o destino me conduza, abro os vidros para deixar entrar ar fresco, escolho a música que quero ouvir e sigo. Ontem calhou-me em sorte chegar mesmo a tempo de ouvir Domingos António (a propósito, meu caro, tomo a liberdade de lhe indicar duas pequenas falhas, uma logo no início da sonata nº 7 de Prokofiev e outra nos prelúdios, op 11, de Scriabin).

E, sei-o de experiência feita, há duas coisas que me comovem, me apaziguam, me fazem ver o mundo com outros olhos, me transformam em melhor pessoa: uma é a música, outra é um pedido de desculpas.

8.12.09

Visconde, em modo analítico

O problema é que, parecendo que não, a minha vida é bastante semelhante ao golo que o Liedson marcou ontem ao Setúbal, o segundo, ele marcou dois, o primeiro foi um golo de pura técnica, brilhante desmarcação, golpe de rins, esforço, logo, esse golo não é chamado para esta história, o que para aqui interessa é o segundo, o fiscal de linha assinala fora de jogo, a bola sai pela linha de fundo, o guarda-redes coloca de novo a bola em jogo, nos pés do Liedson, reparem, o Liedson não faz nada, é o guarda-redes adversário que lhe coloca a cola nos pés, o Liedson não pediu nada, estava ali sossegado da vidinha dele, a pensar em situações, cada uma mais problemática do que a outra e, a meio dessas cogitações, dá-se o facto de a sua visão periférica lhe indicar que está uma bola nos seus pés, nenhum defesa por perto e o guarda-redes está fora da baliza. E aqui, meus caros, normalmente as pessoas tendem a complicar, perdem tempo a pensar por que razão a bola está ali, olham segunda vez para a baliza, para se certificarem de que efectivemente ela está deserta, tendem a olhar em redor apenas para uma análise espacio-temporal dos jogadores adversários e, no preciso momento em que vislumbram toda a problemática, o defesa esquerdo desarma-os, limpinho. O Liedson, e é aqui que está o maravilhoso paralelismo que quero estabelecer entre o segundo golo do Liedson e a minha vida, o Liedson, detecta o contacto da bola com o seu pé, não perde tempo com hossanas à fabulosa situação que acaba de se lhe deparar e remata para a baliza deserta, sem falhar o alvo, one shot, ele provavelmente não terá oportunidade idêntica nos próximos trezentos jogos, parece fácil, é só chutar e fazer o golo, mas não é, noventa e sete por cento dos indivíduos perdem tempo precioso em segundas e terceiras avaliações da situação, fazem elaboradas análises de risco, quando o que que há a fazer é puxar o pé atrás e não falhar. Por hoje era só isto, agradecido.

7.12.09

Basicamente, é isto (revisited)


Há um ano, mais dia menos dia, eu com datas sou um desastre, com excepção das datas que realmente me interessam, há um ano, dizia eu, partilhava com um vasto auditório o que tinha nos bolsos. Hoje, faço o mesmo exercício, tiro tudo o que tenho nos bolsos, e vejo que poucas coisas mudaram. A carteira continua igual, foi-me oferecida por um velho amigo há alguns anos, o carro que conduzo é o mesmo, aliás, é uma carrinha, esqueço-me sempre que agora tenho uma carrinha, desapareceu o i-Pod, desapareceu a "pen", talvez seja um indício claro que as tecnologias me começam a aborrecer, o cartão agora é dourado, caramba, não podia deixar esta oportunidade de exibir a minha faceta pedante, o cartão de restaurante era o do "Mercado do Peixe" em Aveiro, parece que fechou, já lá tentei ir duas vezes, sem sucesso, ou fechou ou então fechas às terças, o cartão de restaurante (há sempre um cartão de restaurante na minha carteira) agora é do "Castas e Pratos", se eu fosse a vocês dava lá um salto, fica ali encostado à estação dos comboios do Peso da Régua, garrafeira excelente, e, espero que reparem na ambivalência, apesar do cartão dourado, tenho no bolso um cartão "Andante", o que significa que recentemente me desloquei utilizando transportes públicos em geral e o metro do Porto em particular, reparem ainda que abandonei o porta-chaves do Sporting, não quer isto dizer que o meu fervor clubístico tenha esmorecido, nada disso, foi apenas um abandono estratégico, estou sempre a abandonar o que me entristece, me deixa de rastos, me insulta a inteligência, finalmente aparece o cartão de passageiro frequente da Iberia, espero que notem o efeito distintivo, toda a gente tem o cartão de passageiro frequente da TAP, pois bem, eu tenho o da Iberia, sempre alimenta a ideia de eterno viajante, não é preciso que se saiba que a maior parte das viagens não são mais que o percurso Aeroporto-Hotel-Aeroporto. Ou seja, em resumo, olho para estas duas fotos, mais de um ano as separa e, em boa verdade, nada mudou nos meus bolsos.

6.12.09

Isto anda tudo ligado...

Eduardo consente frango monumental

'Chicken Lovers' é a nova campanha da McDonald’s

Das tardes de Outono

Amigo de longa data, daqueles que acreditam que sabem tudo sobre mim (erro crasso, nem eu sei tudo sobre mim), convenceu-me a uma jornada degustativa de vinhos do Novo Mundo. Este amigo, grande amigo, de longa data, tinha já decidido que eu me renderia às rolhas plásticas e à embalagem tetra-pak, que eu valorizaria apenas o néctar em si, o leve aroma frutado do vinho, a suavidade do toque de barrica francesa.

Acontece que, também nos vinhos, conta muito o ritual, não prescindo da rolha de cortiça, não prescindo do sabor a rolha que me faz provar o vinho e rejeitá-lo, o que representa, acto contínuo, receber uma palavra do escanção e ficar ali à conversa, a aprender mais, numa troca de saberes, não prescindo de inclinar a garrafa a quarenta e cinco graus, deter-me na beleza do rótulo, adivinhar a casta.

Fosse o vinho perfeito, com rolha absolutamente estanque, e não me restaria mais do que um "pode servir, está perfeito".

4.12.09

E estava ela, a mulher bonita, mais o saco de compras, mais o guarda-chuva (o que chovia hoje em Madrid, senhores!), mais o bebé de colo. E estava eu, que perguntei à mulher bonita se me permitia que a ajudasse, e ela, a mulher bonita, estendeu-me o guarda-chuva e o saco de compras e lá subimos as escadas e ela, a mulher bonita, disse "muchas gracias" e sorriu e lá fomos cada um à sua vida. E eu fiquei a pensar se a teria ajudado se ela não fosse bonita e concluí que sim, no fim de contas não sou má pessoa.

2.12.09

Dos sonhos

Esta noite sonhei que tinha o cabelo igual ao do George Michael, aquele cabelo que ele tinha ao tempo do "Do They Know it's Christmas?", naquela parte em que está o Phil Collins a tocar bateria de ascultadores nos ouvidos e um pull-over aos losangos, sem mangas, eu afogueado, imagino-me a esbracejar, em sofrimento por ter um cabelo igual ao do George Michael, ainda se fosse o cabelo do George Michael ao tempo do teledisco do "Last Christmas", naquela parte em que saem do Jeep, sempre era um cabelo mais composto, caramba, um cabelo igual ao do George Michael não se deseja ao pior dos inimigos, este sonho é pior do que o outro, recorrente, em que conduzo um Porsche cor de laranja, já não bastava ser um Porsche, tinha que ser cor de laranja, felizmente era só um sonho aquilo do cabelo igual do George Michael ao tempo "Do They Know it's Christmas?", ainda assim levantei-me de propósito só para confirmar que sim, que continuo com o meu bom velho cabelo igual ao do George Clooney, mas em melhor.

1.12.09

Nem eu, que sou eu, concordo com isto...

"Amizade com uma mulher é impossível. Há sempre a sombra do sexo".

Pedro Mexia, na revista do Expresso

Isto anda tudo ligado...

Georges Bizet, Carmen, nuova produzione Teatro alla Scala

Direttore: Daniel Barenboim