31.1.10

Dos posts que parecem confusos, mas não

O meu pai mandava-me ao ar e depois agarrava-me, agarrava-me sempre, eu sabia que ele me agarraria sempre, sei que vem desse tempo este meu saber que, ainda que pareça que estou a cair no vazio, há sempre uma mão que me vai agarrar, é sempre assim, por isso é que eu posso arriscar sempre tudo no preto, parece que vai sair vermelho mas, no último instante, acaba por sair o preto.

O melhor de eu saber que havia sempre uma mão que havia de me agarrar é que podia ocupar o meu tempo de queda a elaborar mirabolantes planos bê, cê e mesmo dê, imaginava os rapazinhos que não tinham um pai que os agarrasse quando os atiravam ao ar, como resolveriam eles o problema, eu nunca precisava de os usar os meus planos alternativos, sabia que nunca precisaria de os usar, afinal o meu pai agarrava-me sempre quando me mandava ao ar, por isso os meus planos alternativos imaginários podiam ser os mais mirabolantes, os mais espantosos, os mais elaborados, com explosões e poeira no ar, no fim, eu havia de sair em triplo mortal encarpado, e a verdade, verdadinha é que agora esses planos bê, cê e mesmo dê são uma grande ajuda, quando tudo falha, que não falha, parece que falha mas não, no fim é só sacudir a poeira e ajeitar o nó da gravata, toda a gente sabe que os nós de gravata têm uma certa tendência a ficar desajeitados depois de um triplo encarpado.

30.1.10

Maneiras que hoje esta era a mensagem

A verdade é que eu, no género "tipo que as senhoras velhinhas apreciam deveras" sou praticamente imbatível, é ver-me sentadinho no meu lugar seis à, tenho contrato vitalício para me sentar no lugar seis à, e, em se aproximando uma senhora velhinha, mira-me com o seu olhar tipo "jovem rapaz auxilie-me aqui com estas malas que transportam chumbo", eu dobro o El Pais, retiro o i-Pod dos ouvidos e pergunto delicadamente minha senhora, posso ajudá-la?, e a senhora velhinha diz que sim, e eu rearrumo o que já está na bagageira e, aqui é que está o momento crítico do processo, sorrio, e eu, em sorrindo, dá-se o caso de as senhoras velhinhas entenderem o meu sorriso como querendo dizer "apreciaria deveras a sua companhia durante a viagem, minha senhora", sorriem também e, apesar de serem as felizes possuidoras de uma reserva para a fila vinte e dois, sentam-se, não no lugar seis cê, mas no lugar seis bê e eu, ai de mim, escuto interessadamente a história do netinho mais velho, que estuda nisso dos computadores, mais a história do falecido, que bom homem era o falecido, reparem, o Criador podia ter-me reservado uma boa performance no género "tipo por quem as indivíduas extremamente parecidas com a Uma Thurman simpatizam" e, nesse caso, convidar-me-iam para suas casas, abririam um Collares de Setenta e Quatro, provavelmente um Viúva Gomes, e, enquanto eu as servisse delicadamente, com parcimónia, elas haviam de me interromper o gesto e proporcionar-me uma violenta sessão de sexo, mas não mais de três minutos, que as coisas são como são e não como nós as imaginamos.

28.1.10

Eu, jogador de póquer...

...não poderia deixar de assinalar que hoje se celebra o Dia Europeu da Protecção de Dados.

25.1.10

E também preciso de um gira-discos, herdei uns vinis.

Do que eu precisava mesmo era de um mapa daqueles grandes, em vez das ruas havia de ter as coisas cá da minha vidinha, e um círculo vermelho que me dissesse "Você está aqui".

Isso é que era.

24.1.10

(Still loving you)

A verdade é que já dancei ao som dos Spandau Ballet, já tive singles dos Alphaville e do Gazebo e dos Human League, comprados por mim, de livre vontade, caramba, quem diria que tinha tanta margem de progressão, agora ele é Haydn, ele é Liszt, e ainda não cheguei à idade de me preocupar com isso da próstata, sabe-se lá o que estarei a ouvir daqui a dez anos, mas a verdade é que ele há dias em que fico mais sensível, caramba, eu ainda sou do tempo em que eles dominavam o Top Mais, o Klaus Meine mais o Rudolf Schenker, uma semana a seguir à outra, via-se o Top Mais só para saber quem tinha ficado em segundo e agora fazem-me isto, ao fim de quase duzentos anos de carreira, resolvem acabar assim, sem um aviso prévio, ao menos podiam fazer como os Delfins, sempre doía menos.

23.1.10

Da absoluta necessidade de identificar a problemática da situação

Na maioria dos dias, posso usar este blog para aquilo que ele foi criado, para me divertir. No entanto, há alturas em que o que acontece à minha volta, os problemas do mundo, me tocam de tal forma que me vejo na necessidade premente de não calar mais a dor, de deixar que a revolta se liberte, de não ser apenas mais um a assistir às notícias à hora do jantar e a virar a cara para o lado, fazendo de conta que não é comigo. Há alturas em que o horror, o choque e a confrontação com os males do mundo me exacerbam o sentido cívico e a necessidade de exercer a cidadania, não calando o que me vai a alma e contribuindo, enfim, com uma acção válida para uma outra visão, um pequeno contributo para a luz.

Como já certamente se percebeu, estou a falar da problemática do Sá Pinto e do Liedson, e o que mais me faz pensar que o mundo está podre é que todos se tenham focado no confronto físico. O problema, a essência da questão, é que um verdadeiro líder jamais pode beliscar a imagem de alguém da sua equipa, jamais pode apontar publicamente um erro depois de ele ter acontecido. E este é que é o choque, é imaginar Sá Pinto no banco a desancar em Rui Patrício.

Qualquer pessoa que saiba os mínimos sobre a ciência de liderar de homens (ou, mais difícil ainda, liderar mulheres) sabe isto. Sá Pinto, não sabia. E isto é que me atormenta.

Era só, ide em paz. Já desabafei.

22.1.10

Da amizade

Ultrapassada a última etapa de troca de presentes de Natal, verifico que não recebi nem Dan Brown nem Rodrigues dos Santos.

São estes pequenos nadas que provam que tenho uns amigos fantásticos.

Já é dia vinte e dois de Janeiro...

... e o mais longe que estive de casa foram quatrocentos quilómetros. Acho que estou a abichanar.

20.1.10

Da minha triste vida

As pessoas que me conhecem, e aqui não me refiro a quem me conhece mais ou menos, isso até eu me conheço mais ou menos, sabem bem que eu tenho uma poltrona onde me refastelo todo o santo dia, embrulhado num edredão, daqueles com forro de flanela, às flores, acho que são girassóis, ou então são papoilas, para mim é tudo flores, eu caí no caldeirão da felicidade quando era pequenino e agora não preciso de tomar nada, só vejo flores e das cor-de-rosa, estou eu sentadinho na poltrona e o edredão a cobrir-me todo, nem uma pontinha fica de fora, e, note-se, no meu caso particular nem seria coisa de espantar que ficassem pontas de fora, eu enroscadinho, com uma lâmpada daquelas de descer às grutas, eu sei que devia dizer um "frontal, do género dos utilizados para a prática de espeleologia", mas a temática do post desaconselha que eu utilize aqui os meus vastíssimos conhecimentos da ciência dos desportos radicais, isto é um post sobre um homem que está sentado numa poltrona debaixo de um edredão, por isso lá estou eu, edredão por cima de mim abaixo, lâmpada acesa para ler os meus livros de histórias de amor com finais felizes, que aquilo debaixo de edredão, parecendo que não, é escuro, só quem passa o dia debaixo de um edredão é que sabe como aquilo é escuro, eu ainda uso um frontal para alumiar, mas outros há que não pensaram nesta solução engenhosa, tudo aquilo é silêncio, é da natureza dos interiores de edredão ser silenciosos, eu só saio da poltrona quando ouço as vozes, aí levanto-me da poltrona, sempre debaixo do edredão, braços levantados aos céus, mãos a tapar os ouvidos, não me perguntem como é que se faz isto, e desato a correr pela casa, aos gritos de "oh não, as vozes voltaram, outra vez as vozes!", o problema é que acabo sempre por chocar com os móveis, é o que dá não sair de debaixo do edredão.

18.1.10

E tudo isto descobri sozinho, sem ajudas

Vai daí, um homem passa a vida a fazer-se forte, isto vem já do tempo das cavernas, ou dos descobrimentos, dá igual, um homem saía de manhã e caçava um bisonte ou um ptelossauro, estavam os bisontes, ou os ptelossauros, dá igual, a beber calminhos na bordinha do rio e um homem disparava a flecha, ou a lança, dá igual, o bicho desfalecia logo ali, e, em chegando a casa, um homem contava que o bicho se tinha virado, que os animais feridos são assim mesmo, e os gritos de dor do animal eram tão altos que veio a família toda dos ptelossauros, mais a dos bronquioliticosauros, que são aparentados, e nisto da dor é um toca a reunir, somos uns para os outros, e ela, todo o santo dia no aconchego da caverna, está bem que tinha deitado abaixo umas árvores durante a manhã, para acender a fogueira, está bem que espantou uma onça que entrou na caverna, está bem que teve que ir buscar água ao rio, fintando os crocodilos ou os jacarés, dá igual, mas ela olhava para ele, piedosa, e gabava-lhe a coragem, sim senhores, belo bisonte, vai descansar, toma lá as chinelas, eu vou já depenar o bicho, não te incomodes, não tarda nada está na mesa, que coragem, que fortuna a minha.

Vai daí, um homem passa a vida a fazer-se de forte, só para se armar. O problema é que um dia um homem apercebe-se que elas preferem os sofridos, os dos dilemas, os que pedem colo, caramba, os que choram.

Passei todo o dia a pensar nisto

Mas porque razão é que um homem vai querer umas cuecas iguais às do Cristiano Ronaldo?...

17.1.10

(Era só para dizer que estou a reler Dostoievski)



Ontem...

...um rapaz com uns vinte e tal anos, que me deve alguns favores, aproximou-se, tocou-me no braço respeitosamente, disse-me "há quanto tempo Senhor Visconde!...", eu respondi "rapaz, que tal vão esses ossos?" e o rapaz, fazendo aproximar uma rapariga também com uns vinte e tal anos, disse-me "Gostava de lhe apresentar a minha senhora", e disse "Gostava de lhe apresentar a minha senhora" com ar sério, sem se rir.

Não sei o que pensar disto.

15.1.10

Em memória

Se eu tivesse mesmo um Tio Lancastre, havia de ser como o meu Tio de Paris, sempre impecavelmente vestido fosse qual fosse a ocasião, sempre pronto a ter uma interminável conversa sobre vinhos, sempre tão conhecedor que conseguiu a impossibilidade estatística de, nas primeiras cinco vezes que estive em Paris, não tivesse repetido nenhuma rua, nenhum museu, nenhum lugar.

Se eu tivesse mesmo um Tio Lancastre, havia de ser assim, como o meu Tio de Paris, um homem que viajou mais do que aquilo que eu jamais viajarei, que comprava arte a artistas de rua, que lia desenfreadamente, que me ensinou a saber cozinhar iguarias de qua nunca tinha ouvido falar antes e a nunca desprezar a importância da qualidade dos ingredientes e que, sempre elegante, foi um lutador. Até hoje.

14.1.10

Para memória futura

Nunca mais almoçar no restaurante da Casa da Música.

(nem jantar)

12.1.10

Tio Lancastre

Lembro-me perfeitamente do semblante carregado do Tio Lancastre quendo me ouviu comentar com o meu primo Benoliel de Faghundes que a Ruth Marlene tinha cobrado apenas oitocentos euros para posar para uma revista de reconhecido interesse público. O Tio Lancastre, com o seu ar grave e sério, chamou-me de lado e recomendou-me que estivesse dentro de dois minutos no seu escritório. Naturalmente, obedeci.

Já no escritório, rodeados de madeiras nobres e primeiras edições de livros raros, o Tio Lancastre acendeu demoradamente o seu Partagas nº1, e fez sinal ao fiel Ezequiel para que servisse dois copos de conhaque, mostrando, com a distância entre o seu indicador e polegar na posição horizontal, a quantidade que me deveria ser servida. Depois, sentou-se tranquilamente na sua poltrona e indicou-me uma cadeira baixa para eu me sentar, sempre que me queria explicar algo que achava que eu já tinha idade para saber, indicava-me uma cadeira baixa, colocando-me num plano inferior ao da sua magnífica poltrona de couro, que pertencia à família há catorze gerações e meia.

E explicou-me longamente o Tio Lancastre que a Ruth Marlene poderia até ter pago do seu próprio bolso (embora não fosse evidente nas fotos, o Tio Lancastre fez-me notar que a Ruth Marlene, em condições normais, tem bolsos), poderia ter pago dos seu bolso, continuou o Tio Lancastre, os custos de produção da reportagem fotográfica e, ainda assim, teria um retorno bastante aceitável, uma vez que o cachet extra que passará a cobrar por cada espectáculo, a melhoria do contrato com a sua representante, a visibilidade que terá a partir da saída da magnífica reportagem, com a agenda preenchida em espectáculos pelo Verão fora, mais o circuito da emigração, fará com toda a certeza aumentar o pecúlio da jovem.

Eu fiquei a matutar, é da minha natureza matutar, e fiquei a pensar que o Tio Lancastre sempre foi capaz de ver para além do óbvio.

Promessas...

Diz que as enfermeiras vão queimar as fardas...

11.1.10

Era isto, ou então falava do tempo.

De tudo o que me aborrece na vida, pudesse eu escolher apenas um aborrecimento, unzinho, e havia de eleger como aborrecimento-mor as mensagens da victoria miles a dizer que agradecemos a sua mensagem que merecerá a nossa melhor atenção, contactaremos o mais breve possível, com os melhores cumprimentos, a Equipa do Programa Victoria.

Reparem, mais do que aborrecer-me ser apenas mais um na longa lista de penitentes do Victoria Miles, ser apenas um número, eu, o Visconde de Vila do Conde, mereço exactamente o mesmo tratamento que pessoas comuns, o que em entristece é ter que enviar justificativos das minhas viagens, quando a coisa certa seria eu ter uma passadeira vermelha em cada aeroporto por onde passo, powered by Victoria Miles, os senhores da Star Alliance haviam de contratar alguém cuja função seria estender-me a tal passadeira vermelha, alguém que estivesse às sete da manhã no aeroporto de Lisboa a servir-me chá com scones quentes, aqueles tipos da ANA ou lá o que é, que dançaram no Natal, quero-as a fazer uma coreografia só para mim, havia de se chamar Visconde Dance, um clássico, haviam de desenvolver uma metodologia para me ler a íris ainda na segunda circular e creditar-me automaticamente as milhas em classe executiva, sem eu ter que me aborrecer, ou alguém por mim, a bem dizer não andei eu a matar-me com tantos estudos para depois ter que perder o meu tempo a enviar comprovativos das milhas, mas, em resumo, a coisa havia de se dar assim, haja algum respeito por quem ainda voa sem ser em low-cost.

Da partilha

Derivado da situação de um homem se propor escrever, cito, um post bonitinho, a puxar ao sentimento, emotivo, e tal, fim de citação, houve alguém lá em cima, se é que me faço entender, nunca faço, a minha vida corre bem em quase tudo, graças a deus, excepto no capítulo que concerne à questão de me fazer entender, que não gostou da ideia e que, antevendo um post com borboletas saltitantes e nuvens fofinhas ou mesmo um tratado sobre a questão dos peitos, digo sempre peitos, acho que me dá um toque de excentricidade, da Ruth Marlene, caramba, os meus conhecimentos sobre não-assuntos chegam ao pormenor de saber que se escreve Ruth e não Rute, mas então sucedeu que o todo-poderoso terá ficado pouco contente com a ameaça da exposição pública da minha veia poetico-sentimental e, todo-poderoso que é, apagou da minha memória a palavra-chave que me abre as portas deste antro e eu, orgulhoso que sou, não quis perguntar a quem sabe e, vai daí, deitei-me a adivinhar e, por tentativa-erro lá cheguei à palavra certa, pelo menos uma vez na vida fui capaz da palavra certa, e cá está, bastou digitar a palavra tydfdredad e cá estou de novo com capacidade para escrever o que me vai na alma, e agora poderíamos perder algum tempo sobre os motivos que me levaram a escolher tydfdredad como palavra-passe, mas se calhar, é melhor não irmos por aí, já me basta querer ir por aí quando a conjuntura do momento me aconselha a não ir por aí, maneiras que o que eu queria dizer é que estariam reunidas as condições para poder escrever o tal post fofinho, mas deu-se o caso de, entretanto, a minha apetência para posts fofinhos ter ficado severamente prejudicada, maneiras que fica apenas uma lição deste episódio, que as circunstâncias terem uma tal volatilidade que, querendo eu escrever um post fofinho, não estavam reunidas as condições técnicas e, estando reunidas as condições técncicas, já não estão reunidas as condições espirituais para escritos que se enquadrem na categoria de fofinho. E isto, a bem dizer, é uma lição de vida.

4.1.10

Hummm...

(olhando para as últimas produções, quer-me parecer que é capaz de estar na hora de escrever um post bonitinho, a puxar ao sentimento, emotivo, e tal...)
Depois de umas curtas e merecidas férias, o dia é passado a receber pessoas, todas elas com assuntos extremamente urgentes, todas elas a requerer a minha colaboração inteligente e extremamente decisiva para que as coisas aconteçam da melhor forma para todos em geral e para quem não se quer atravessar um bocadinho em particular.

Maneiras que industriei a minha fiel secretária na nobre missão de seleccionar para minha análise apenas uma em cada vinte solicitações.

Sinto-me um bocadinho Willy Wonka.

3.1.10

Allegro ma non troppo

Corre, não fraquejes agora, a vizinha norueguesa está no jardim, estás na visão periférica dela, levanta a cabeça, corre, agora acena ao tipo do trezentos e dezasseis, ainda ontem fez dois abaixo do par, não pares, deseja-lhe um bom dia com voz firme e com fôlego, olha, agora vem na tua direcção a da casa azul, dizem que sabe tudo o que há a saber sobre pintura, cumprimenta-a, não pares, mantém-te direito, não olhes para trás, agora não podes parar, está o casal de velhotes suiços a passear o cão, dizem que usam a piscina todo o ano, são bem capazes disso, não pares, cumprimenta só, o cão gosta de ti, todos os cães gostam de ti, embora tu só gostes dos cães grandes, corre, não pares, agora é a miúda do Volvo que te pergunta se o ano foi bom, não pares, diz que sim, obrigado, parece que estão todos na rua, não podes parar, olha, estás a chegar a casa, a cadela está a saltar-te para o peito, podes parar, deita-te no chão, põe Keith Jarrett, Keith Jarrett é bom para recuperar o fôlego, podes parar finalmente, talvez não devesses ter comido tanto estes dias, meu rapaz.

Tio Lancastre

Quando faltava um minuto para terminar o ano, o Tio Lancastre escapava-se para o jardim, copo de conhaque na mão, sentava-se na velha poltrona que estava por baixo da sacada, estendia as pernas, cruzava os pés e acendia o seu Cohiba. Depois, enquanto dentro de casa todos se abraçavam e desejavam um bom ano, o Tio Lancastre sorria, tranquilo, e puxava doze baforadas do Cohiba, contava-nos que era a sua interpretação da tradição das doze passas, nunca lhe perguntei se pedia desejos, apostaria que não, que o Tio Lancastre não era homem de desejar, era dos que fazia acontecer e pronto.

Também comecei este ano de charuto na mão, lá fora, à chuva, enquanto segurava um copo na mão que ergui numa saúde imaginária à memória do Tio Lancastre.

2.1.10

Este ano voltei a não comer passas

E, ainda assim, estou certo que todos os meus desejos se vão realizar, mesmo aqueles que eu só vou desejar lá mais para o final do ano, mesmo aqueles que ainda não sei que são desejos, isto de desejar é mesmo assim, a coisa vai fluindo, ora agora não desejo, afinal, bem vistas as coisas, até desejava, pronto, não se fala mais nisso, a situação ascendeu à categoria de desejo.

E eu, em desejando, a coisa acaba por se dar, o problema é se eu não desejar, desejar mesmo a sério, porque, se eu desejar, a coisa dá-se, qualquer que seja o ano, e não será dois mil e dez a estragar-me as estatísticas.