29.6.11

Do sul

Um destes dias, quando eu voltar a entrar no elevador e me perguntarem se as férias foram boas, vou demorar dois segundos, pensar no robalo grelhado do Gigi acompanhado pela banda sonora do Fantasma da Ópera, no vinho branco gelado bebido ao jantar, na corrida das sete da manhã na marina, nos dias de sal na pele, nas noites longas, nas havaianas enfiadas nos pés, na cerveja fresca e responderei, sorriso nos lábios, o que se responde nestas ocasiões: "sim foram boas, mas curtinhas...".

26.6.11

Uma vez por outra, escrevo sobre coisas cá minhas

Chegou de mansinho, a ganhar território aos poucos, primeiro conquistou os mais novos, certo, quem meus filhos beija minha boca adoça, depois chamou-me pai e eu realizei que, sem dar por isso, tinha uma filha nova, mostrei-lhe o mar, levei-a aos jogos da selecção, não consegui vencer o "factor Cardozo", isto dos sangues é como é, aprendeu a gostar de caracóis e de lambujinha, animou-me quando o Sporting perdia, eu abracei-a com força e chorei com ela a morte do melhor amigo, ela disse que podia viver aqui o resto da vida, eu tracei-lhe um plano para os próximos sete anos, fez-me fazer o que eu disse que nunca faria e levantei-me às quatro da manhã para a ir buscar às festas da moda, deu-me a volta e eu fiz de polícia mau, levou uma bandeira de Portugal na mala e disse que havia de abrir um restaurante de comida portuguesa em Assunção, que esta comida é de Deuses, num ano tocou-nos a todos, a cada um de sua maneira e nós, sei-o eu, virámos-lhe a vida ao contrário, para ela nada será como antes deste ano em Portugal.

A minha Paraguaia ligou-me hoje, só para dizer que chegou bem e disse que tinha saudades minhas. E eu quase chorei duas vezes no mesmo ano.

25.6.11

A festa da minha terra é linda

Daqui onde me encontro, gin tónico numa mão, consigo vê-los a todos, aos da tribo dos desdentados com o copo de plástico da Super-Bock morna na mão, às velhotas que dançam aos pares, aos que já estavam entornados na largada de toiros das seis da tarde e agora dançam o Apita o Comboio como se estivessem possuídos, aos duros que se preparam para estar na largada das duas da manhã, à miudagem que não larga a loura que acabou de chegar do Luxemburgo, consigo adivinhar o preciso momento em que o vocalista sentirá necessidade de agitar as massas e atacará o follow the leader, sigame.

Daqui onde me encontro, tomo nota mental para não me esquecer de reservar a temporada para o São Carlos.

23.6.11

Old school

A grande vantagem de eu não ser utilizador disso do Facebook é não poderem dizer de mim "já lhe dei os parabéns pelo Facebook".

21.6.11

(Que as há...)

O homem que se sentou à minha frente cheirava a Tabac, eu sempre associei o cheiro a Tabac a homens que fumam Ducados ou Gitanes sem filtro, bem sei que é uma associação de ideias rudimentar, a verdade é que o homem não tinha ar de quem fumasse Ducados ou Gitanes sem filtro, o que é uma maçada, aborreço-me sempre quando os meus estereótipos se abalam,  e este post era sobre isso, de estereótipos que não resistem ao confronto com a realidade, isto do homem que cheirava a Tabac era só para me lembrar que houve um tempo em que se fumava Gitanes sem filtro, lembro-me bem que nesse tempo tudo o que eu desejava se resumia a coisas que se podiam comprar, os anos acabaram por me ensinar que as coisas boas da vida não se compram, felizmente aprendi isso em tempo, mas, voltando aos estereótipos, em verdade vos digo que tenho cá as minhas teorias sobre mulheres com as malas organizadas e com o interior dos automóveis imaculadamente limpo.

20.6.11

À novel Assembleia da República, eu só peço que legisle no sentido de ...

... proibir de vez as unhas de gel, os perfumes de cheiro adocicado, as pernas mal depiladas, as frases que começam com "é assim", as calças brancas com cuecas de gola alta, os soutiens que prometem o paraíso e afinal nem por isso, as cuecas fio dental vermelhas a acompanhar calças de cintura descaída, os soutiens roxos com alças à mostra naquelas t-shirts brancas que deixam as costas nuas, lingerie que não seja branca ou preta, saias curtas a acompanhar pernas com celulite, cabelos pintados de uma cor com a raiz de outra , tatuagens de golfinhos e de estrelinhas, sushi em centros comerciais, coisas da Pandora, correntes nos tornozelos, unhas dos pés pintadas de uma cor diferente das unhas das mãos, pulseiras ruidosas.

(e é ver a retoma económica...)

19.6.11

Modo espartano

Eu podia viver só com queijo de Azeitão, vinho do Douro e pão alentejano.

(e Chartreuse verde com muito gelo, evidentemente...).

17.6.11

Escolhas

Porquê flamenco no Palácio dos Duques de Pastrana quando se podia ter Tony Carreira no Megapiquenique do Continente?

16.6.11

O ovo azul

Um complexo processo de acasos e circunstâncias várias transportou-me para uma visualização do teledisco dos Kaoma e para aquilo do "Chorando se foi quem um dia só me fez chorar", eu já não me lembrava do argumento da coisa, se calhar porque nunca antes tinha visto o teledisco, aliás, no tempo em que eu via telediscos, alternava-se entre o "Still loving you" e o "I just called to say I love you", entremeado com uma curta temporada de "Nikita" e de "We are the world", embora, pensando bem, isto do "We are the world" foi já numa fase terminal em que eu via telediscos, derivado dessa situação quer-me parecer que eu nunca tive contacto visual com o teledisco dos Kaoma in illo tempore, mas a verdade é que desde esses tempos de antanho nada mudou, no tal teledisco o miúdo de ascendência africana, digamos assim, consegue o extraordinário feito de conseguir dançar lambada com a miúda loura, filha do dono do bar de praia mexicana, ora acontece que o pai não gosta, é da natureza dos pais de miúdas louras não apreciar que elas dancem lambada com miúdos de ascendência africana, digamos assim, e separa-os, puxa a miúda para fora dali, grande plano do miúdo de ascendência africana, digamos assim, com cara de sofrimento, uns dias depois, a vocalista dos Kaoma sempre a cantar, a cena repete-se, miúdo ascendência africana, digamos assim, outra vez a dançar com a miúda loura, pai da miúda loura a enxofrar-se outra vez e a fazer menção de os separar outra vez, só que acontece que a vocalista dos Kaoma, sempre a cantar aquilo do "Chorando se foi quem um dia só me fez chorar", entra na pista e saca para dançar o pai da miúda loura, in extremis, estava já ele com a mãozorra prestes a cair em cima da miúda loura, o tipo primeiro estranha, mas depois entranha-se, é vê-lo a rodopiar com a vocalista dos Kaoma na pista de dança, olhar cúmplice para o miúdo de ascendência africana, digamos assim, que continua a dançar com a filha loura e a mensagem que eu retenho é que a melhor maneira de resolver o problema dos empata é providenciar-lhes alguma coisa para os ocupar, até pode ser a vocalista dos Kaoma.

15.6.11

Tio Lancastre

"Meu caro...", dizia-me o meu Tio Lancastre enquanto conduzia o Bentley Continental nas curvas apertadas de Monte Carlo"...não se conhece verdadeiramente uma mulher se não tivermos observado a forma como supera um desgosto de amor".

E explicou-me longamente, enquanto descíamos para o Casino, que é na sabedoria com que gerem as emoções contraditórias, na elegância com que se levantam da mesa com o coração nas mãos, na sobriedade com que se referem a quem não as mereceu, que se percebe a essência da Mulher que afinal valia mesmo a pena.

13.6.11

Coisas de que me lembro enquanto degusto um Porto Quinta do Noval

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

11.6.11

Afinal

E lá estava eu, a pensar se havia de dizer à mulher que me ia passando os códigos de barras dos livros pela máquina registadora que ela tinha um sorriso muito bonito, por um lado ela podia exacerbar o alcance de um "parabéns, você tem um sorriso muito bonito" (comigo as mulheres tendem a exacerbar o que lhes digo), por outro lado ela podia pegar pegar num pau e vir atrás de mim para me bater, afinal as mulheres estão pouco habituadas a que um "parabéns, você tem um sorriso muito bonito" signifique apenas e só isso.

Lá me decidi, no preciso momento em que ela me devolvia o cartão, naquele momento em que é socialmente aceite que as pessoas se olhem nos olhos, a largar um "parabéns, você tem um sorriso muito bonito". E ela disse "muito obrigado", sorriu de novo e cada um de nós foi à sua vida.

10.6.11

Nunca poderás dizer que conheces uma mulher...

...se nunca a tiveres visto sem saltos altos e desmaquilhada.

8.6.11

Tio Lancastre

"Se queres um conselho, meu rapaz,..." - começou o meu Tio Lancastre, enquanto me servia dois dedos de Old Bushmills sem gelo, "...não te deslumbres com a que perora sobre a qualidade de fotografia, com a que sabe de cor o nome dos actores russos, com a que não tem dúvidas sobre a corrente em que se deve inserir a obra do realizador, com a que discorra longamente sobre as idiossincrasias da nova vaga do cinema alemão. Se queres um conselho, meu rapaz, deslumbra-te com a que se emociona com a história, com a que chora se o herói morrer no final, com a que te agarra com força a mão se o vilão estiver prestes a levar a melhor. Deslumbra-te com a que goste de ver filmes, não com a que perceba de cinema".

5.6.11

(desta vez não houve enquadramento espacio-temporal para fazer aquele número de comentar as eleições)

...mas que me aborrece que o Primeiro-Ministro do meu país me chegue de Massamá, isso aborrece.

E então?

Se a manhã foi passada com a pele a saber a sal, olhos brilhantes a deliciar-me com o mar da costa alentejana, barba de quatro dias, caipirinhas a acompanhar camarão e conquilhas, a noite foi de fato escuro, barba já feita, cabelo penteado, a distribuir sorrisos no jantar de gala no Palácio da Bolsa, garrafas Magnum de vinhos do Douro, sapatos bem engraxados.

4.6.11

E lá estava eu...

...salada de pepino à minha frente, telemóvel encostado ao ouvido.

Arriscando a vida, portanto.

3.6.11

(amanhã vou para o Carvalhal)

Passar o dia na Comporta e levar livros para estudar é tão inadequado como comer sardinhas assadas barradas com doce de morango.

1.6.11

Coisas capazes de me alegrar o dia

Ligar o rádio e saber que Cohen ganhou o prémio Príncipe das Astúrias das Letras este ano

(Foto: Jornal Público)