29.9.11

Se eu tivesse um blog cor de rosa (III)

O Brent subiu na última meia hora? A Euribor a um mês sobe há quatro dias seguidos? A Sharapova teve que abandonar o torneio de Tóquio por causa do tornozelo? Vai chover no Rio de Janeiro para a semana?

Who cares? Afinal de contas logo à noite vou ver o Sporting-Lazio!

27.9.11

Se eu tivesse um blog cor de rosa (II)

Estou a ver o jogo do Benfica no hotel. Aborreço-me de morte. Vou correr meia hora e depois vou jantar uma francesinha. Talvez tome chá, nunca se sabe.

(se eu tivesse um blog cor de rosa este post tinha vinte comentários, haveria quem batesse palminhas por ser tão inteligente que descobriu que estou no Porto, haveria quem manifestasse solidariedade com o meu aborrecimento e dissesse que "já me senti assim", haveria quem se focasse na solidão que é passar tanto tempo em hotéis, haveria quem se lembrasse da odisseia dos 21 kms de domingo passado e me aconselhasse só dez minutos a passo, haveria quem me dissesse que "lol, corrida e francesinha é fatal" e, finalmente, haveria quem não deixasse passar a suave dúvida da última frase)

26.9.11

Se eu tivesse um blog cor-de-rosa (I)

Há uma tribo que vê os programas dos prémios do cinema mas não quer saber dos prémios do cinema, interessa-se pelos maus vestidos das estrelas que vão aos programas de prémios de cinema, há uma tribo que vê os programas de gente fechada em casas mas não quer saber de gente fechada em casas, interessa-se pela voz esganiçada das apresentadoras de programas de gente fechada em casas, há uma tribo que lê blogs de pessoas que gostam de escrever sobre gatinhos fofinhos e roupinha baratinha mas não gostam de gatinhos e roupinhas, só lá está para dizer (outra vez) que não gosta de gatinhos fofinhos e roupinha baratinha, há uma tribo que não perde pitada da história da fulana dos blogs que manda recadinhos no blog para a cicrana dos blogs mas não sabe de nada, só lá está para perguntar o que se passa, que tem andado fora disso dos blogs.

25.9.11

Para o ano é que é..

Resolvo apanhar o autocarro como toda a gente, afinal estou aqui pelo convívio, apanho uma carga de nervos porque nos misturam a nós, os da Meia, com os outros, os da Mini, atletas musculados, pura fibra,  prestes a cavalgar vinte e um garbosos quilómetros misturados com rabos alimentados a comida rápida, saberá o Criador como conseguirão arrastar-se os seis quilómetros de martírio que têm pela frente, chegamos à ponte, os portentos de músculo seguem pelo corredor da direita, uma grade de ferro separa-nos da tribo dos badochas, eh lá, que é isto? um tipo careca e de bigode com uma t-shirt a dizer "Auto Jacinto" e uma senhora de idade posicionam-se junto da minha pessoa, tento explicar-lhes que o lugar deles é do outro lado dos ferros mas eles indicam-me o dorsal Banif, o dos da meia, distinto do dorsal EDP-Segafredo, o dorsal dos outros, aliás, têm uma t-shirt técnica como a minha, com buraquinhos no material de fibras têxteis sintéticas de alta tecnologia por onde há-de transpirar este corpo são, talvez não tenham sido os únicos que aproveitaram a inscrição de um amigo que ficou doente, os do outro lado têm t-shirts com o mesmo desenho, mas de algodão, reparo que temos todos sapatos desportivos caros, a dizer "gel" e "tecno", vamos a isto, começa a corrida, um quilómetro e ainda não consigo correr, há demasiada gente à minha frente, não sei que faz aqui esta gente, sabemos todos que no fim ganham os indivíduos de raça negra, começa a descida da ponte, entro na minha velocidade cruzeiro, sinto o apoio do público, imagino que me gabam o corpo ligeiramente flectido, os cotovelos a movimentar-se junto ao tronco, os cabelos esvoaçando, dois quilómetros, primeiro reabastecimento, a miúda que distribui as águas grita-me "não pares, não pares", sorrio, estão sempre a dizer-me a mesma coisa, toda a gente sabe que nunca paro, oito quilómetros, o corpo ressente-se das tirinhas de entrecosto na brasa acompanhadas por vinho da casa, a mim o que me desgraça sempre é querer fazer de conta que sou do povo e que não me importo de alinhar no vinho da casa, dez quilómetros, estamos a meio, os números dizem-me que estou capaz de fazer a coisa por volta das duas horas, uma miúda canta ao vivo Amy Winehouse, parece-me adequado, a minha condição actual é parecida com a da própria Amy, corro, corro sempre, há demasiadas mulheres a ultrapassar-me, isso aborrece-me, ainda para mais elas parecem frescas, acelero o ritmo e vejo-as ficar para trás, as coisas são como são, dezoito quilómetros, a vista começa a turvar-se, as formas das pessoas começas a ficar difusas, o meu cérebro diz-me para continuar, falta pouco, parece-me que um tipo com uma cruz vermelha me pergunta se está tudo bem, nem lhe respondo, faço só um sinal com o polegar levantado, subo a rua para o Vasco da Gama, há crianças que me gritam que falta pouco, meta, uma hora e cinquenta e oito, mas que caralho farão estes dois tipos que me amparam, um de cada lado?, só preciso de uns minutos, não, não preciso de oxigénio, está tudo bem, obrigado, comigo está sempre tudo bem.

24.9.11

E tu?

Sei que há um castelo na Ilha Kirrin, percebi o conceito da manipulação com aquilo do Tom Sawyer a pintar a cerca da Tia Polly, ainda hoje não entro numa gruta sem pensar que o Índio Joe pode ainda por lá andar, aprendi a importância de gerir a informação com o Tintin e aquilo do eclipse do sol, ainda hoje me lembro de Phileas Fogg quando marco reuniões em Lisboa à mesma hora que descolo em Madrid, sei quem disse que cativar significa criar laços, ocorre-me o dilema de Ivánovitch de cada vez que aposto na roleta, identifiquei-me com Juan Belmonte a cada vez que me dizem "como o famoso jogador de futebol", estive no 221B de Baker Street mesmo a sério, aprendi com Corto Maltese que a linha da vida se pode prolongar a golpes de canivete, nunca mais entrei no castelo da minha cidade sem pensar na História do Cerco, estive em Paris e pensei o que teria levado  Jacinto a voltar a Tormes.

(baseado na crónica da Clara Ferreira Alves no Expresso de hoje)

22.9.11

Horácio Inácio is back

Desde os tempos de antanho fomos treinados para sobrevalorizar as das mamas grandes, era ainda o tempo das cavernas, há tanto tempo que eu não citava o tempo das cavernas, e um homem era incentivado pelos sarracenos que caçavam leões a dar pontos extra às das mamas grandes, este equívoco foi passando de geração em geração, nunca se soube explicar muito bem porque haviam as das mamas grandes de ter um tratamento preferencial, isto até chegarem os das psicologias, a tentar encontrar nexo causal entre a alimentação e as das mamas grandes, notai, um homem que já sabe apreciar um bom risotto e sabe distinguir uma boa alheira de caça brava a ter de assumir que lá no parietal direito, ou lá onde é que se encontram as mensagens subliminares, que há causalidade entre mamas grandes e alimentação sadia, é por estas coisas que os psicólogos sempre me causaram taquicardia, é aparecerem-me à frente e lá fico em hiperventilação, a ouvir vozes na minha cabeça, vieram depois tempos mais felizes, o homem começa pouco a pouco a racionalizar, há quem chame processo de abichanamento, começa o homem a libertar-se do peso do que diziam os antigos, da informação genética passada de boca para ouvido e chegamos a este estadio civilizacional em que, sim senhores, um homem sabe que não há razão nenhuma para preferir as das mamas grandes mas, ainda assim, respeita as tradições, que isto nunca se sabe.

Tio Lancastre

"O que te queria dizer, meu rapaz", começou o Tio Lancastre enquanto me indicava uma cadeira, dobrando o Times e apantando-me a garrafa de Royal Salute 21 anos da qual eu havia de me servir, recusando o gelo, "O que te queria dizer é que em caso algum deverás dobrar o pijama (aliás, em caso algum deverás usar pijama), colocar as pantufas em posição horizontal, usar pulseiras étnicas, beijar de olhos abertos, gostar de restaurantes que sirvam cozinha de fusão, secar o último pingo com papel higiénico, usar gravatas de poliéster, camisas de manga curta ou botões de punho que não tenham as tuas iniciais. Em caso algum deverás preferir as mulheres incapazes de ver as relações como um longo jogo de xadrez ou aquelas que não sabem quem era Lillas Pastia".

Eu assenti, concordante. Até porque, por uma vez, nada do que me recomendava o Tio Lancastre me era desconhecido.

19.9.11

Coisas que aprendi hoje

O Sporting tem jogadores que se chamam Onyewu, Schaars e Wolfswinkel.

(e diz que marcam golos)

Pergunta para conhecedores

Qual é a música de Bécaud que está no meu i-Pod e que me faz lembrar Alberto João Jardim?

Era só isto, a partilha faz-me bem

Por algum motivo que me escapa ganhei uma aversão fatal a indivíduos com lentes escuras em pala por cima de óculos graduados, é uma aversão do mesmo tipo que me causam indivíduos vestidos de vermelho com uma ave estampada sobre o sítio onde imagino que estará o mamilo esquerdo, isto no caso deles, no caso delas, a ave, em estando sobre o mamilo esquerdo, estaria ao nível da cintura, é uma aversão que enquadro na mesma sintomatologia que me causam pessoas que escrevem "lol" e começam as frases por "é assim", em estando na minha linha de visão um indivíduo com as tais palas, principalmente se estiverem levantadas, começam a dar-se-me os nervos, começa aquilo das vozes a ressoar na minha cabeça e acabo sempre por me aborrecer e eu, em me aborrecendo, é uma maçada para todos, inclusivamente para mim.

18.9.11

Uma rápida vista de olhos ao que se escreveu nos blogs durante o fim de semana...

...permite-me concluir que nenhuma blogger tira fotos a si própria, desnudada.

16.9.11

Post em tempo real

Era uma vez uma mulher muito bonita que estava a passear-se pelos livros da secção de viagens, pegou no guia Nepal e eu imaginei-a uma mulher do tipo espiritual, posição de lótus em sinal de recolhimento, as pernas musculadas talvez se aventurassem até ao campo-base do K2, depois pegou num guia da Áustria e eu pensei que afinal ali estava uma apreciadora dos cafés de Viena, uma amante de música exacta, finalmente deteve-se no guia de Nova Iorque e eu pensei que afinal a mulher bonita era uma apaixonada pelas cidades grandes, pelas compras, pela sofisticação.

Acabou por levar o guia dos parques de campismo de Portugal.

Retomando a conversa

"Quando um homem está enamorado, nunca lhe ocorre que a rapariga o possa ignorar: julga sempre que lho confessou francamente num tom de voz ou num aperto de mão"

Graham Greene, in "O Terceiro Homem"

12.9.11

6.9.11

É a economia, estúpidos!

Ouçam-me com atenção, vou dizer isto apenas uma vez: se teimarem nessa ideia bizarra de me castigar até à medula com isso dos impostos eu começo a ponderar substituir Cartuxa de 87 por Duas Quintas de um ano qualquer, esqui nos Alpes por poker em casa dos Vasconcellos de Meirelles, Quinta do Lago por Novotel, BMW por Renault.

E sempre quero ver como se aguentam sem o imposto sobre o valor acrescentado que pago com o Cartuxa de 87, sem o imposto sobre produtos petrolíferos que incide sobre o jet-fuel do voo para Genéve, sem o Imposto Automóvel que pago pelo BMW.

Estou só a avisar, não me queiram ver realmente aborrecido.

5.9.11

Factos

Dez quilómetros demoram quarenta e seis minutos se tiver Tannhäuser no i-Pod, cinquenta minutos se tiver a Nona Sinfonia e uma hora se tiver o CD do Oceano Pacífico.

Este fim de semana...

... em circunstâncias que não vale a pena enunciar, experimentei isso de Nutella. A excitação que a ingestão deste produto causa nas bloggers cor de rosa escapa-me em absoluto.

(é por estas e por outras que cada vez me convenço mais que nunca conseguirei ter um blog de sucesso)

Há poucas coisas tão constrangedoras...

...como assistir ao diálogo de duas amigas que se encontram na secção de "produtos com defeito" da Burberry do Freeport.

4.9.11

Heranças

Ao principio eu acreditava que havíamos de pescar trutas num rio de águas rápidas, talvez avistássemos ao longe um urso cinzento, remaríamos num barco de madeira ao por do sol, havia de lhes contar histórias que começariam por "Numa ocasião..." ao redor da fogueira e, finalmente, havia de os aconchegar nas tendas enquanto eu ficaria ali a vigiar mais uns minutos, não se lembrasse algum coiote de aparecer.

(entretanto realizei que não vivemos nas Montanhas Rochosas).

(para compensar, ensinei-os a ler mapas e a gostar de montanhas)

2.9.11

Tio Lancastre

"Carlos da Maia, rapaz", começou o meu Tio Lancastre enquanto esperávamos que nos servissem um Château Lafite Rothschild na esplanada do Hotel Mont Blanc em Megève, "Carlos da Maia era um caso sério entre as mulheres porque o avô Afonso em boa hora contratou Mister Brown para o educar. Não fosse o espírito pragmático do Senhor Afonso da Maia e seria ele um Eusebiozinho, em menos roliço. Repara, rapaz, Carlos da Maia não chegou a dar umas bengaladas no Dâmaso Salcede, que bem era merecedor, nunca se explicou capazmente com a Gouvarinho,  nunca se chegaram a ver resultados nem do investimento no laboratório nem no consultório de médico nem sequer se lhe viram progressos nos ideais de usar o seu nome e a educação que lhe caiu dos céus para melhorar o seu tempo e os do seu tempo. E isto, meu rapaz, nenhuma mulher tolera, esta errância e este desbaratar de recursos são a segunda pior coisa que um homem pode fazer aos olhos de uma mulher, imediatamente a seguir a ignorá-la".

E, enquanto olhávamos o sol a esconder-se por detrás das montanhas e nos serviam finalmente o vinho, o meu Tio Lancastre continuou: "Carlos da Maia era um bom partido para a aventura breve, para uma vida paralela, e ele era sabedor disso, repara como nunca se interessou por mulheres que não fossem de outros. As mulheres, meu rapaz, sabiam-no bem e apreciavam-lhe as maneiras correctas, os modos galantes e, vá lá, o saber das viagens pagas pelo avô".

E, por fim , rematou o Tio Lancastre, sábio como sempre: Carlos da Maia, elas sabiam-no bem, era do tipo "não é para casar".

E eu acenei que sim, concordante.

1.9.11

(na verdade, sei a resposta)

De cada vez que releio "Os Maias" fico sempre a pensar no veriam as mulheres de tão especial no Carlos da Maia.

(se calhar isto nem é um blog)

A maioria dos bloggers tem um gato. E fuma. E conhece pelo menos dez outros bloggers. E gosta de praia.

Eu tenho um cão. Fumo depois do quinto gin. Não conheço quase ninguém dos blogs. E gosto de montanhas.